sábado, 1 de dezembro de 2018

Abismo do Medo II - Não voltar não é uma opção!


Aqui estamos nós mais uma vez, nos direcionando para Nova Redenção-BA. Na primeira vez que tivemos contato com a Toca do Ingrunado, nos surpreendemos com sua morfologia e seu tamanho, grandes salões e condutos sem fim. Da primeira vez fizemos apenas um pequeno reconhecimento da caverna, e verificamos que a caverna na sua parte superior é quase toda composta por desplacamento e após o abismo a caverna se transforma e é nítido que a caverna se formou por dissolução. Porém, essa foi apenas uma visão limitada da nossa primeira visita a essa caverna.

Entrada da Toca do Ingrunado

Saímos com um planejamento pronto do que iríamos fazer dessa vez, topografar a parte de cima que parecia ser menor que embaixo, no segundo dia descer o abismo e começar a topografia de lá, enquanto a equipe de paleontólogos verificavam os fósseis presentes na caverna. Então, saímos de Petrolina logo cedo em direção a Nova Redenção em três, André, Bamberg e eu, e no caminho passaríamos em Campo Formoso para encontrar com Danilo e ele seguir viagem com a gente.

Da esq. p/ dir.: em pé: Emerson Cajado, Jardilan, Bamberg, Augusto, Thiago; sentado: Altemar, Som, Didi, Danilo, André e Ney.

Chegamos em Nova Redenção no meio da tarde e quando chegamos, o pessoal do GAPPE estava terminando de montar a escada para auxiliar na subida do abismo no segundo dia. Com a escada montada nos direcionamos para a Toca do Ingrunado, e logo na entrada já tivemos o primeiro problema, a escada caiu em cima de um inxú de maribondo e alguns de nós fomos picados, eu sou alérgico e um picou na minha panturrilha, de pronto tomei um antialérgico. Deixamos a escada na entrada e fomos adiantar a topografia da parte superior da caverna. Começamos a topografia e quanto mais íamos topografando mais ficávamos surpresos com o tamanho da caverna, pensávamos que rapidamente topografaríamos a parte superior. Porém, quanto mais entrávamos, mais a caverna desenvolvia. A caverna é realmente muito grande, com salões gigantes, alguns condutos laterais ficaram para a próxima topografia, pois não tínhamos tempo suficiente para fazer tudo naquele dia. Chegamos em um rastejo pequeno, já próximo do abismo e o GAPPE foi na frente, enquanto íamos topografando atrás. E do nada um dos membros do GAPPE reclamou do mal cheiro, e logo no próximo salão demos o nome de Salão do Cordão Cheiroso (um membro da SEA, com certeza, comeu algo estragado) OBS: não trabalhamos com nomes.

Começando a topografia
Continuamos a topografia e a caverna sempre prosseguia, finalizamos os trabalhos no primeiro dia depois de 5 horas topografando (muita coisa para topografar na parte superior ainda). Quando estávamos saindo, encontramos os outros membros da SEA que tinham saído mais tarde de Senhor do Bonfim. A ideia era montar a ancoragem já no sábado a noite, porém mais uma vez os maribondos se fizeram presentes e picaram os outros membros da SEA que faltaram, Altemar, Ney, Cajado e Jardilan(calouro). Então decidimos ir dormir e descansar, já que a expectativa era alta para topografar e explorar a parte depois do abismo.

Topografia
Acordamos, tomamos café e nos direcionamos para a caverna. Enquanto o pessoal da vertical fazia a ancoragem para descermos o abismo, a equipe de topografia rapidamente foi verificar algumas entradas laterais que tinham ficado em aberto no dia anterior, e como esperado, dessas entradas laterais a caverna se desenvolvia muito. E para nossa surpresa, a morfologia tinha mudado na parte superior, invés de só desplacamento, começamos a identificar dissolução na formação da caverna. Topografamos e demos o nome de Salão da Jibóia, e não conseguimos conclui-lo. Muito ficou para topografar na parte superior ainda.


Com a ancoragem montada, começamos a fazer a descida e aos poucos todos foram chegando na parte inferior do abismo. A equipe de paleontologia só chegaria 2 horas para frente, então uma equipe ficou em cima aguardando o restante do pessoal, enquanto o restante que desceu ia explorar a caverna e procurar por novos fósseis, e muitos foram achados. Quando a equipe de paleontologia chegou e desceu o abismo, ficaram realmente entusiasmados com o potencial da caverna. Quando todos estavam lá embaixo, começamos a topografia e mais uma vez a caverna nos surpreendeu, muitos condutos tiveram que ficar em aberto na parte inferior da caverna também. A todo momento a caverna muda seu visual, uma hora com salões gigantes, outra hora com condutos pequeno e pequenos rastejos.

Salão Guararapes

Já se passava das 12 horas de cavernada e decidimos que era preciso começar a subir, pois só tínhamos uma escada e tinha muita gente para subir. Começamos a subida, um a um foi subindo e chegando muito cansado lá em cima. A final de contas são 30 metros de abismo. Todos subiram pela escada, sempre com um cordão de vida preso ao corpo, em caso de alguma queda estávamos sempre presos a uma corda. Todos sofreram um pouco para subir, e teve uma situação em que uma aluna do grupo de paleontologia simplesmente travou e não conseguia mais subir, os braços tinham fadigado. Foi preciso subir na outra corda e fazer o resgate dela na corda. Resgate feito, continuamos a subir. No final da subida, demoramos mais de 3horas para que todos tivessem subido. Todos inteiros, porém muito cansados. Entramos por volta das 9hrs da manhã, já se passava de 1hr da madrugada.
Descemos para o restaurante que tínhamos reservado nosso jantar, estávamos mortos de fome. Comemos, e seguimos para dormir. Acordamos todos quebrados, mas muito satisfeitos com o resultado da expedição. Uma caverna incrível, com um potencial paleontológico gigante, muita aventura e muito trabalho a ser feito ainda. Não vejo a hora de voltar e dar seguimento a topografia. OBS: primeira vez que a topografia me intrigou mais que os fósseis em uma expedição.

Bases lançadas no COMPASS


Grande abraço e até a próxima!

Thiago Mattos

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Os fósseis da Gruta da Lapinha e o potencial paleontológico de Nova Redenção.





A cidade de Nova Redenção ganhou notoriedade com o atrativo turístico do Poço Azul do Milu, que além de possuir uma beleza extraordinária, foi palco para realização de um famoso documentário científico onde cientistas e mergulhadores retiraram fosseis submersos de vários animais extintos, dentre eles, espécies novas de Preguiças Gigantes. 


Além do Poço Azul a cidade de Nova Redenção contempla várias outras cavernas com alto potencial paleontológico. E durante o Simpósio Brasileiro de Paleontologia dos Vertebrados que aconteceu em julho de 2018, na cidade de  Teresina no Piauí, apresentamos para a comunidade científica o potencial paleontológico da Gruta da Lapinha que fica situada entre os municípios de Andaraí e Nova Redenção.

Esse trabalho apresentado no congresso é resultado da parceria estabelecida entre a UNIVASF Campus de Senhor do Bonfim e os grupos de espeleologia SEA e GAPPE. 

Apresentação do trabalho da Gruta da Lapinha, durante o XI SBPV em Teresina.


Nova Redenção fica situada em terrenos com rochas carbonáticas da bacia Una-Utinga, essas rochas são propícias à formação de cavernas. A gruta da Lapinha é formada por rochas carbonáticas de calcário rico em magnésio, chamado de calcário dolomítico.


Mapas adaptados da carta geológica da CPRM. Nota-se pelos mapas que Nova Redenção situa-se em terrenos formados por rochas de uma antiga bacia sedimentar. São conhecidos Geologicamente como calcário do Grupo Una.

A topografia foi feita parcialmente e revelou até o momento cerca de 600 metros de projeção horizontal e um desnível de 17 metros. Os fósseis foram encontrados no trecho final da caverna nos salões que batizamos de Salão Benevides e Salão da Mexerica.  O Salão Benevides é alcançado após descer uma fenda estreita com o desnível de – 6 metros. Esse é o salão onde encontramos a maior concentração de fósseis, e logo em seguida ao Salão Benevides, depois de encarar um teto baixo na parte sudeste da caverna, encontramos outro agrupamento de fosseis. Esse lugar ficou batizado de Salão mexerica, depois que fizemos uma pausa pra comer tangerinas (também chamadas mexericas) antes de encontramos os fósseis.



Mapa topográfico preliminar da Gruta da Lapinha.


A rocha calcária que forma a caverna foi originada em um antigo mar há mais de 700 milhões de anos atrás. Na imagem podemos ver marcas deixadas pelos primeiros seres vivos que habitavam esse mar primitivo, conhecidos como Estromatólitos.


Uma fenda de 6 metros de desnível separa o salão dos fósseis, da parte inicial da caverna.

 Resgate de fósseis no Salão Mexerica. Detalhe das cascas da fruta que deu nome ao Salão.


Os fósseis foram resgatados e tombados na Universidade Federal do Vale do São Francisco – Campus de Sr do Bonfim. Lá  foram realizados os estudos que ajudaram a identificar a que animais pertencem esses ossos. Os resultados mostram que os ossos encontrados no Salão Benevides são principalmente de uma preguiça terrícola extinta chamada de Valgipes bucklandi, de um cervídeo (Mazama gouazoubira) além de ossos do fêmur e tíbia de um Tigre –dente – de - sabre. Já os fósseis encontrados no Salão Mexerica são de outra espécie de preguiça chamada de Nothrotherium e também foi encontrado dentes de Anta cujo o nome científico é Tapirus terrestris.

Fósseis "in locu" da preguiça gigante Valgipes bucklandi

Concentração de ossos da espécie Mazama gouazoubira que é conhecido popularmente como veado catingueiro. 

Detalhes do dentário da espécie Mazama gouazoubira encontrado no Salão Benevides.

Podemos ver que alguns dos ossos passaram por um interessante processo de cristalização, que pode ser estudado futuramente, aumentando assim o nosso conhecimento sobre o processo de fossilização em cavernas. Outro aspecto interessante é que os ossos estavam desarticulados e muitas peças estavam fragmentadas e pode nos indicar que os animais não morreram ali, e que sofreram algum tipo de transporte; Considerando também as distâncias onde o material fóssil foi encontrado em relação às entradas conhecidas hoje, é provável que esses fósseis foram depositados nos salões por uma antiga entrada que encontra-se atualmente obstruída. 

Detalhes de um fêmur de Preguiça gigante completamente mineralizado por calcita.

Outro fêmur de preguiça, mostrando que muitas peças encontram-se fragmentadas.


Entrada principal da Gruta da Lapinha em Julho de 2017.



domingo, 16 de setembro de 2018

Expedição Curaçá: O Lado B da Prospecção.





Prospecção do latim prospectione que significa procurar, pesquisar; é um termo da geologia que é usado para descrever os métodos utilizados para descobrir jazidas de uma região. Na espeleologia fazemos prospecção para descobrir cavernas. O lado bom da prospecção é o prazer da descoberta que acompanha nosso espirito aventureiro desde os tempos imemoriais. Mas, nem tudo são flores nos dias de prospecção!



Quais são as três situações indesejadas em uma prospecção de cavernas?

I - Chegar ao afloramento e não encontrar a entrada da caverna.

II - Encontrar uma entrada na caverna e não conseguir entrar.

III - Entrar na caverna e perceber que ela não desenvolve.

Passamos por um pouquinho de cada uma dessas situações na expedição de setembro que relatarei a seguir.


A prospecção começa na biblioteca. 
Encontramos a dica no livro lançado pelo ICMBIO: PAN para a conservação do patrimônio espeleológico nas áreas cársticas da bacia do rio São Francisco. De acordo com esse livro, a bacia do São Francisco é dividida em 3 áreas cársticas prioritárias para ações de conservação.  E a área que compreende parte dos estados de Sergipe, Alagoas , Pernambuco e Bahia (ver mapa abaixo) é considerada como lacuna de conhecimento espeleológico, em razão do alto potencial e do baixo numero e cavernas registradas.

Mapa das áreas cársticas retiradas do livro do ICMBIO: PAN para conservação do patrimônio espeleológico da Bacia do São Francisco.





Como pode ser observada no mapa as regiões cársticas do Supergrupo Canudos (sub-bacias de Curaçá e Macururé possui apenas 4 cavidades registradas), e adjacente a essas sub-bacias está os carbonatos do Grupo Una e Formação Caatinga sub-bacia Curaçá com simplesmente nenhuma caverna registrada (Lembrando que cavernas icônicas como: Toca da Boa Vista, Gruta dos Brejões, Toca dos Ossos e Gruta do Convento se desenvolvem em rochas dessas Formações).




Pois bem, com nosso destino já definido partimos de Petrolina com destino a Curaçá no dia 8 de Setembro de 2018. Nessa ocasião batemos o record negativo de realizar a expedição com menor número de participantes em toda a história da SEA. Apenas 3! Eu, Thiago e Ariavania (que se deslocou quase 500 Km de Alagoinhas na Bahia até Petrolina em Pernambuco afim de participar de uma expedição SEA).





Foto Oficial da Expedição: André, Ari e Thiago. Na entrada da Gruta do Patamuté. 08/09/2018.


Decidimos começar a expedição com a certeza de visitar uma caverna! Seguimos para a Gruta do Patamuté que está situada a 18 km do povoado de Patamuté e que desde o inicio do século XX é utilizada pela comunidade regional para realizações de cerimônias religiosas. A caverna é bastante antropizada e já foi topografada pelo Grupo Sul Baiano de Espeleologia (GSBE) em 1999. Apesar disso, havia uma dúvida que eu precisava confirmar em Patamuté. 



Planta baixa e perfil topográfico realizado pelo GSBE liderados pelo amigo Elvis Barbosa. Aproveitamos a oportunidade e atualizamos algumas medidas com a trena laser. Já que em 1999 a topografia foi feita com trena de fita.

Logo nas proximidades da entrada da caverna encontramos esse belo exemplar de Estromatólito. Estromatólitos são registros das primeiras atividades biológicas remontam a era Proterozoica e indicam a presença de uma mar raso e quente a cerca de 700 milhões de anos atrás.


No único salão da Gruta do Patamuté, podemos observar colunas que chegam a 30 metros diâmetro ( Centro da foto); Um pequeno altar (fundo) e as unidades estratigráficas bem delimitadas na parede. 


Detalhe das unidades estratigráficas. Metacalcários do Grupo Vaza-Barris.



A dúvida que precisava tirar em Patamuté é da área da bioespeleologia. Diz respeito, a um crustáceo exclusivo do ambiente subterrâneo conhecido pela ciência como Anfípode e tem o nome comum de “pitu”. O artigo que descreve o gênero de anfípode diz que a espécie referencia foi encontrada na gruta do Patamuté. E eu tinha o interesse particular de encontrar esse crustáceo. 

Apesar da estrada com trechos acidentados e da sinalização confusa, chegamos com relativa facilidade na Gruta do Patamuté. Lá, ficamos encantados com a beleza cênica do único e volumoso salão que compõe a Gruta.  
Também encontramos alguns fiéis que tinham se deslocado de Juazeiro para fazer suas preces.  Um dos fiéis nos contou que visita a gruta desde a década de 50. E relatou que "há muito tempo atrás a caverna tinha uma “aguada”, mas que devido a uma maldição a água da caverna secou"... Isso teria acontecido antes da década de 50! Sem água, sem chance de encontrar o crustáceo. 
Mas, nossa esperança foi alimentada com a informação que atrás da mesma serra onde está a Gruta do Patamuté, existe a Gruta Olhos d´água e essa teria água. Talvez tenha sido dessa gruta que foi coletado o “pitu”. Vamos pra lá!


Precisávamos encontrar alguém pra nos levar a Gruta dos Olhos d água, já que essa não recebia visitante e, portanto não há estradas para lá. Voltamos para o Povoado de Patamuté a fim de almoçar e encontrar algum guia local.  Encontramos seu Carlinhos que tinha um repetitivo bordão “ Essa Serra é cheia de segredos”.



Como prometido por Carlinhos o carro chegava bem próximo a Gruta dos Olhos d’água. Ficamos bem animados ao ver o maciço calcário. A entrada larga e quase vertical da caverna fez nossa mente viajar sobre a possibilidade de encontrar fósseis da megafauna no seu interior. E quando caminhávamos serenamente para nossa primeira cavernada do dia, eu chamei a atenção de Thiago e Ari para uma enorme colmeia de abelha bem no trecho que permite a decida na caverna. Era inviável descer ou subir aquele abismo sem atiçar as abelhas e tomar alguma ferroada, não demoramos a decidir que deixaremos para outra oportunidade descobrir o que esconde essa caverna protegida pelas guardiãs melíferas.


Entrada da Toca d'água. Infelizmente foi o mais próximo que conseguimos chegar sem ser atacados pelas abelhas. 

Já eram duas da tarde e decidimos ir tentar a sorte na Serra da Borracha. Demoramos pouco mais de uma hora e meia pra chegar ao afloramento da Serra da Borracha, e a medida que encontrávamos os vilarejos todos confirmavam que existia sim grutas por ali, o que nos deixava empolgados. Ao chegar bem próximo ao afloramento percebemos que ali tinha uma mineradora de mármore. Uma pedreira como chamam os locais. E talvez por isso, não conseguimos convencer nenhum dos locais a nos levar nas entradas das cavernas que pelas informações coletadas são várias. 
Os moradores ficaram temerosos e aparentemente acreditavam que de alguma forma nós poderíamos atrapalhar a forma como eles trabalham na pedreira. 
 Na próxima vez, teremos que ir com antecedência  conversar com os moradores explicar que nossas intenções são apenas de passar horas no interior da terra conhecendo e se maravilhando. E que não temo interesse na pedreira de mármore. 

Paredão calcário da Serra da Borracha. Alguns acreditam que ainda é possível encontrar nesses paredões a extinta Ararinha Azul (Cyanopsitta spixi)

 Para finalizar nosso lado B da prospecção encontramos no caminho de volta para Petrolina, um senhor lutando para trocar um pneu do seu carro a beira da estrada. Paramos para ajudar e colhemos informações sobre duas localidades com cavernas promissoras nesse carste.  
Avistamos outro carro quebrado na pista, será um sinal? 
Meia hora depois era o nosso carro que estava quebrado e finalizamos a noite comendo uma pizza na oficina esperando o conserto do carro.



Final de expedição de Prospecção com o carro enguiçado. 


sábado, 1 de setembro de 2018

IV Encontro Nordestino de Espeleologia: Lições de Ituaçu em ano de Copa



Não era só um jogo da copa do mundo de futebol que estava rolando, o fato é que saímos de Petrolina com destino a Ituaçu no horário em que a seleção Brasileira de futebol entrava em campo contra a seleção da Sérvia no dia 27 de junho de 2018. Este fato nos leva a nossa primeira reflexão...



O atual desinteresse do brasileiro pela copa do mundo. Segundo as pesquisas publicadas no jornal Folha de São Paulo às vésperas do mundial de futebol, 54% dos torcedores em potencial da seleção afirmam não ter qualquer interesse pelo Mundial da Rússia. Alguns acham que o desinteresse é reflexo do 7x1 da última copa. Outros apontam o fato de que no futebol global as grandes equipes europeias são grandes conglomerados de jogadores que funcionam como seleções continentais, ao assistir um jogo da "Champions League" temos a oportunidade de ver todos os jogadores em alto nível. Vemos o melhor lateral do mundo passando a bola para o melhor atacante do mundo, já nas seleções nacionais que disputam a copa, o mesmo não acontece o que talvez gere alguma frustração.






Fazendo um paralelo com a espeleologia (que às vezes esquecemos que também é um esporte), cada ano parece menor o número de espeleólogos que encontramos nos eventos de espeleologia no Brasil. Percebemos isso, tanto em termos locais com nossos membros e expedições cada vez mais reduzidos aqui no sertão nordestino, quanto do ponto de vista nacional. A SBE lançou dados parciais sobre o censo espeleológico que está sendo realizado em 2018 e os números são tristes. Enquanto que a National Speleological Society (NSS) nos Estados Unidos contam 10 mil membros em 250 grupos, os dados preliminares do censo da SBE aponta que sequer temos 250 membros em menos de 20 grupos. Será que como espeleólogos sofremos da mesma frustração futebolística? Clubes de espeleo pequenos sendo carregados por um ou dois entusiastas. Seria a criação de superligas da espeleo uma saída? É algo pra se pensar com certa urgência antes que a espeleologia brasileira seja engolida pela chamada espeleologia profissional ligada a empresas e órgãos governamentais com objetivos e ideologias voltada para o licenciamento ambiental.






Outros paralelos ainda podem ser traçados entre a copa do mundo e o ENE de 2018. A cidade sede dos dois eventos guardam algumas semelhanças: Ambas as cidades são conhecida por suas baixas temperaturas e o alto consumo de álcool, porém enquanto que a terra de Yuri Gagarin se sobressai no campo da tecnologia e exploração espacial, a terra de Moraes Moreira tem a exploração do subterrâneo como seu destaque. Podemos ter um vislumbre da espeleologia em Ituaçu com o breve resumo de como foi o IV Encontro Nordestino de Espeleologia organizado pelo Grupo Arara de Espeleologia (GAE).





A cidade de Ituaçu em clima de copa, são joão e espeleo.



A abertura do Evento foi dentro de uma caverna, não uma caverna qualquer ,mas a suntuosa Gruta da Mangabeira onde presenciamos a faixa de boas vindas sendo lentamente desenrolada através de técnicas verticais e fomos brindados pela brilhante palestra do Professor Ricardo Fraga. Outro destaque daquela manhã de 28 de junho foi a emocionante homenagem in memoriam a Binael Soares Santos e Simpliciano Lima. Após um ciclo de palestras com algumas referencias da ciência espeleológica fechamos o primeiro dia com a divertida e encantadora travessia da gruta da mangabeira.

Abertura do IV ENE na gruta da Mangabeira.

Turismo na Gruta da Mangabeira pra fechar o primeiro dia do evento.



As cavernadas realizadas no segundo dia do evento foram o ponto alto do Encontro, tivemos a oportunidade de trocar experiências e aprender na prática com ícones da espeleologia nacional nas cavernas: Gruta do Parafuso, e Gruta do Pé do Morro. Infelizmente neste dia não foi possível visitar a Lapa do Bode, por conta de um imprevisto apícola. 



Entrada da Gruta do Pé do Morro- Ituaçu- BA.


Espeleotema que dá nome a Gruta do Parafuso- Ituaçu - BA.



Encerramos a nossa participação no ENE com a maravilhosa comemoração cultural da festa de São Marçal no dia 30/07. Assim como à seleção brasileira, nós também deixamos o evento antes da hora, e perdemos o último dia que culminou com uma expedição para a Lapa do Bode (dessa vez sem abelhas) e o encerramento do evento com o: “CAVERNA NO BUTECO” com a participação especial de Celso Ximenes, o organizador do primeiro ENE contando as histórias e causos dos encontros anteriores.






Lapa do Bode - Ituaçu-BA. Foto:Solon Almeida


Encontro de gerações no " Caverna no Buteco" Ramile Pinto, Ney Godim, Elvis Barbosa, Celso Ximenes, Solon Almeida e Mª Elina Bichuette.



Por fim uma última lição que tiramos da Copa e que podemos trazer para a espeleologia é a da Xenofobia. Os campeões do Mundo de Futebol de 2018 foram os que se despiram do preconceito e tiveram em seu elenco jogadores de outras etnias. Nenhum time da África foi muito longe na copa, já a França que foram campeões e tinham imigrantes em seu elenco chegaram onde chegaram devido ao investimento que fizeram no futebol dos imigrantes. Do ponto de vista espeleológico não é de hoje que discutimos entre nós como a espeleologia nordestina é vista com um certo preconceito pelos espeleólogos do sudeste, não é raro ouvir discursos separatistas e as palavras de Fred Lott (presidente da SBE) e Solon Almeida (Espeleonordeste) durante o evento foi no sentido contrário ao preconceito e reforçou a importância do investimento sobretudo na espeleologia praticada pelos grupos.


Turma do GAE presenteando Thiago (SEA) com o estiloso e cobiçado macacão da tropa de elite do GAE.



Não poderíamos escrever uma crônica sobre O IV ENE sem agradecer imensamente a todos os integrantes do GAE pela hospitalidade, pela amizade e por ter nos mostrado pra todos nós a receita de como fazer um evento espeleológico de sucesso. Um salve para o GAE e seu precioso “JABUTIÇÁ”. 


Jabutiçá o troféu do espeleoesportista do IV ENE.





Nós da SEA deixamos o IV ENE com a responsabilidade de junto com os mentores dos ENE anteriores organizar em 2020  o V ENE, na cidade de Petrolina – PE. 




Contagem regressiva para o primeiro encontro de espeleologia de Pernambuco.


terça-feira, 15 de maio de 2018

Expedição Ingrunado: O Abismo do Medo.



Conhecemos Didi e o pessoal do GAPPE (Grupo Ambiental de Proteção Paleontologia e Espeleologia) no inicio de 2017 durante as expedições realizadas em parceria com a UNIVASF. E desde então volta e meia recebemos notícias de cavernas, dolinas e outras feições na riquíssima região de Nova Redenção na Chapada Diamantina. 

No final do ano passado recebemos a informação de uma caverna com muito potencial e marcamos com Didi nossa visita para dia 21 de abril. 
Partindo de Campo Formoso até Nova Redenção percorre-se aproximadamente 500 km o que levaria cerca de 7h de viagem, mesmo com essa grande distância a proposta era sair cedo e cavernar no mesmo dia. Descobrimos como veremos a seguir, que cavernar depois de um longo dia de viagem é uma péssima ideia.

Chegamos em Nova Redenção a tempo de filar o almoço na casa de Didi e depois de um preparativo aqui outro ali, já estávamos prontos pra cavernar ainda no inicio da tarde. A equipe da SEA era formada por: André Vieira, Thiago Matos, Claudiney Dias “ Ney” e Mattaus Dartagnan vulgo “smigol” O GAPPE contava com Didi e Marcos. 

Logo na entrada da caverna chamada de Gruta do Ingrunado, sentimos que aquela não seria uma cavernada qualquer. Estamos habituados com cavernas na caatinga, onde de longe avistamos o afloramento rochoso destacado em meio a mandacarus, macambiras e outros arbustos da vegetação seca e rala típica da caatinga. Mas, nesse dia foi diferente, a gruta do Ingrunado fica em uma mata densa com árvores de grande porte e a entrada apesar de, grandiosa fica escondida em um microclima sombrio e úmido temos que cruzar enormes troncos caídos e o cenário nos lembra a caverna da série Dark e o clima não deixa nada a deseja o de um filme de terror.

A floresta que antecede a entrada do Ingrunado. 

Detalhe da entrada com típica feição quadrada de desplacamento. 

Assim que entramos na caverna o acesso relativamente fácil por entre grandes blocos desmoronados logo dá lugar a um rastejo poeirento e depois de alguns metros encontramos o abismo que possivelmente seria o que estávamos programados para descer com o rappel. Alguns meses antes, esse abismo tinha sido bravamente escalado por Didi e sua turma do GAPPE, que o batizaram de abismo do medo. Tudo estava como planejado. Mas, estava bom demais pra ser verdade.

Fim do trecho fácil e começo do rastejo.



Minutos antes de encontrar o abismo, Didi e Marcos mostravam se inseguros sobre a direção em que o abismo do medo se encontrava, andavam em círculos e não encontravam o tal abismo. Didi se perguntava se era possível que um desabamento recente tivesse entupido o abismo do medo, mas não demorou até que Marcos seguindo pedaços de barbante deixados em visitações anteriores chegasse a uma fenda. No entanto, Didi estava convencido que aquele não era o abismo do medo, era um novo abismo. Por via das dúvidas fizemos a ancoragem no local e decidimos que faríamos o rapel e tiraríamos a duvida. 

Nossos especialistas em técnicas verticais Thiago e Ney em pouco tempo armaram tudo e Ney já estava na metade da descida quando gritou pra Thiago que iria voltar. Todos ficaram curiosos com o que ele tinha a dizer: 

- A descida não tá fácil. Trata-se de uma fenda em que todo o sedimento está inconsolidado, a sensação é que tudo vai desabar sob nossas cabeças! 

Thiago se equipou pra averiguar e voltou com a mesma insegurança que Ney e foi mais taxativo. 

- Aqui não dá pra descer, certeza que Didi deve ter descido em outro abismo .

Smigol fazendo pose em uma das fendas características do Ingrunado. 



As coisas estavam realmente estranhas naquele dia, os guias que estiveram lá meses atrás não acham o abismo, os caras mais corajosos da vertical estavam inseguros. Pra completar as estranhezas, enquanto Marcos e eu estávamos reconhecendo caminhos alternativos que nos levam a entrada da caverna, ouvimos um barulho de pisadas. Era “ Son” outro membro do GAPPE que chegou atrasado para a expedição e resolveu arriscar nos encontrar já dentro da caverna. Son juntou-se ao grupo de busca nas tentativas em vão de encontrar o tal abismo do medo.

Depois de esquadrinhar todas as entradas possíveis, resolvemos que era hora de dar uma pausa para o lanche, esfriar um pouco a cabeça e repensar as estratégias. Enquanto, lanchávamos Thiago me questiona sobre uma passagem que percorri sozinho na parte do rastejo.  - Será que não é lá? 

Essa passagem que Thiago se referia eu tinha visto logo no inicio da cavernada, no trecho do rastejo. Apontei pra Didi e perguntei se prosseguia e ele respondeu que aquela passagem ainda não havia sido explorada. Eu fui dá uma olhada e vi que ela prosseguia, e que seria interessante para outros momentos, voltei e segui o grupo. Agora, essa passagem que tinha visto no inicio era uma das poucas alternativas que tínhamos para dar prosseguimento a expedição. A essa altura já estávamos bem desgastados e carregar cordas e lonas durante rastejos poeirentos não é das atividades mais agradáveis, por isso dividimos o grupo. Eu, Thiago e Didi iria averiguar essa passagem e os demais ficariam procurando nas proximidades.

O resultado foi que essa passagem nos levou ao tão esperado abismo do medo. Depois de horas poderíamos então acessar “ o outro lado da caverna”. O rapel foi montado rapidamente, mas... cadê o restante do grupo? Didi foi procurar por duas ou três vezes e voltava sempre com a expressão de preocupação? Onde teriam se metido Marcos e Son? Teriam se perdido? Teriam tentado descer o primeiro abismo? Teriam saído da caverna? 

Demoramos para encontrá-los e quando o fizemos já estava bastante tarde da noite, na caverna tanto faz dia como noite mas, o nosso relógio biológico estava nos dando sinais que precisaríamos dormir. Depois de uma curta conversa decidimos que seria mais produtivo deixar o rapel montado e voltar no domingo cedo pra descer o Abismo do medo. Um banho e uma pizza e finalizamos o sábado.

Acordamos cedo no domingo e fomos direto para o abismo do medo. Combinamos que exploraríamos o nível inferior até por volta das dez horas da manhã porque tínhamos consciência que a ascensão seria demorada, já que estamos sem o equipamento adequado e improvisaríamos com a técnica do  nó Prussik.

A descida do abismo com rapel foi sensacional, as técnicas verticais em caverna já são naturalmente divertida por todo o contexto e a finalidade envolvida, mas esse particularmente foi especial pois o abismo é na verdade uma fenda estreita.  A Profundidade é de 28 metros  e a largura varia de pouco mais de 1 metro e meio a trechos que nossos corpos são comprimidos contra a parede. Era como descer por uma chaminé de 30 metros. 

Didi na entrada do abismo do medo. 
Smigol e eu na expectativa para acessar o "mundo inferior"

Ney finalizando a descida. 



Enfim, estávamos no nível inferior e era realmente como o pessoal do GAPPE nos avisou que seria. Uma nova caverna e que caverna! 

A parte superior do abismo é ao que parece um grande espaço entupido por blocos desmoronados, alguns blocos são colossais, e não é raro que a gente passe por baixo de blocos ou por entre blocos desabados achando que estamos contornando as paredes da caverna. 

A parte que se apresenta depois do abismo é completamente diferente. Claramente estamos em uma rede de condutos, que ora se estreita ora se alarga e volta e meia se ramifica, as semelhanças com a Toca da Boa Vista são marcantes. O pouco que vimos nos deixou deslumbrados a potencialidade em termos espeleométricos e os achados paleontológicos fizeram nossas mentes fervilharem, estamos convictos que vamos montar em parceria com o GAPPE  um projeto especial dedicado a gruta do Ingrunado. 

Primeiro salão após o abismo.

Material paleontológico encontrado pós abismo do medo.


Perdemos a noção do tempo lá embaixo, o combinado era começar a escalada do abismo as 10 da manhã e começamos quase meio dia. E a ascensão foi dramática, os trechos em que a fenda se alarga exige muita técnica e força para fazer a subida com o nó prussik, precisaremos repensar a estratégia na próxima expedição. 

Detalhe da ascensão.


Foto oficial da expedição; Thiago, "Smigol", Son, Didi, Marcos, Ney e André.

Voltamos com aquela gostosa sensação de curiosidade: que salões, condutos, espeleotemas , fósseis e obstáculos nos reserva está maravilhosa caverna?.