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sábado, 30 de outubro de 2021

TOCA DO NONATO: Uma cavernada aleatória.

 

Enquanto desempoeirava capacetes e lanternas me dei conta que precisava limpar a pior espécie de poeira que vem se acumulando em tempos de pandemia, aquela que pano úmido nenhum pode afastar:  A das histórias não contadas! Afinal de nada vale os dias especiais se não forem compartilhados.

Esse é o relato de uma expedição que aconteceu em abril de 2019, e que rendeu belas fotografias ( o que por si só, já justifica a postagem).


Registro de Erickson Batista na Toca do Nonato. 04/19




 Escrevendo agora em 2021 posso ser traído pela memória em alguns detalhes.  O que lembro com razoável certeza é que essa expedição não estava no nosso calendário oficial de expedições. O que aconteceu foi que próximo a semana da expedição mensal, Ney enviou no grupo de whats app uma foto e um áudio de algumas pessoas entrando em uma caverna que diziam ser inexplorada. As fotos mostravam um bom potencial e a caverna era na cidade de Cafarnaum na Bahia, essa cidade é próxima a Iraquara que é amplamente conhecida pela quantidade de cavernas e dolinas! Valeria a pena mudar o planejamento e ir conferir. 

O Ney que foi o cara que deu a ideia, nos avisou que não poderia viajar conosco naquele final de semana mas, deu a dica de um contato que encontraríamos na cidade Morro do Chapéu, o tal contato conhecia a caverna e poderia nos levar lá. E assim, pegamos a estrada saindo de Sr.do Bonfim:  Alexandre, Thiago Mattos e eu. Paramos em Várzea Nova para encontrarmos nosso principal fotografo o Erickson Batista.

Equipe completa, chegamos no Morro do Chapéu um pouco depois de meio dia, encontramos o contato que o Ney tinha informado e ficamos sabendo que ele não poderia ir conosco. O que ele poderia fazer era dar umas dicas de como chegar no povoado em que fica a caverna, e o contato do seu Nonato que poderia nos ajudar. 
Antes de nos desejar boa viagem nosso anfitrião do Morro ainda nos mostrou uns vídeos que fez na caverna o que nos deu um ânimo maior para a chegar logo e cavernar antes de anoitecer.
Chegamos ao povoado, e encontramos Seu Nonato!  Um senhor muito simpático, que nos contou vários causos e se prontificou a mostrar a entrada da caverna e autorizou que acampássemos no seu quintal, pós cavernada.

Tudo arrumado chegou a hora de cavernar. De acordo com seu Nonato a caverna fica pouco mais de 300m a frente de sua propriedade, mas, precisaríamos passar pela propriedade de terceiros e, portanto, seria necessário uma ou outra conversa antes de chegar no afloramento. Feito isso, já era quase 16h quando chegamos ao ponto onde estaria a caverna. Seu Nonato teve um pouco de dificuldade de encontrar o local exato da entrada e assim que encontrou nos informou que não poderia entrar conosco devido o adiantar da hora.  Perguntei qual que era o nome da caverna e ele respondeu que não tinha nome, era só "Toca". Normalmente, quando isso ocorre, costuma-se batizar a caverna com o nome da fazenda onde está entrada. Mas, pela simpatia, pelos causos e hospitalidade de seu Nonato, resolvemos que seria justo cadastrar a cavidade com o seu nome.

A caverna tem uma entrada pequena seguida por um conduto estreito com forte cheiro de guano e de animais em decomposição. Passando esse conduto abre um pequeno salão terminando em um teto baixo logo a frente. Será que já acaba aqui? Mas tá diferente do que nos mostraram nos vídeos. "Deve ter alguma outra passagem que passou desapercebido". 

Não demorou para encontrarmos uma passagem lateral mas, que para nossa infelicidade  terminava em um salão obstruído por blocos; Não é possível que viemos de tão longe pra ver tão pouco!



O salão obstruído e a cara de decepção da equipe. Foto: Erickson Batista.


Já estávamos de saída da caverna, mas naquele ritmo sem pressa e sem preocupações! Uma parada para beber uma água e fazer um lanche. Aquele bom bate papo, despreocupado e antes que a maioria terminasse seu lanche eu indaguei: “ Desde quando deixamos um teto baixo para trás? 

- " Vamos rastejar aqui. Obtive a seguinte resposta de Thiago:

- “Vai na frente. Se prosseguir, a gente te segue”. 

- Ok!

Rastejei e percebi que continuava. Avisei a turma! Aquela altura ainda não conseguia saber se prosseguia um pouco mais ou se iríamos nos deparar novamente com um salão obstruído, mas, pelo menos era teto alto; Usando aquela estratégia psicológica de dividir as preocupações por etapas, insisti para que todos fizessem o rastejo e em seguida, pedi para que Erickson fizesse um registro para nossos arquivos, então depois iriamos conferir o final do conduto.  

O conduto pós rastejo.

A medida que progredíamos a caverna nos surpreendeu com condutos e salões completamente diferentes do que tínhamos antes do rastejo, dentre as mudanças destaca-se a drástica mudança progressiva da umidade, culminando em condutos com água e lama. 


Um dos sinais da mudança de umidade foi esse raro registro de uma Gminophiona em caverna. Esse é um anfíbio conhecido como "cobra-cega" e encontrado apenas em ambientes úmidos.



 Nesse ponto a caverna alterna curiosos condutos de meia altura com morfologia retangular e  grandes salões de teto alto.  SIMPLESMENTE NÃO TEM LIMITE A IMAGINAÇÃO DA ÁGUA QUE ESCULPE CAVERNA!



Um dos belos salões encontrados. O desafio aqui é encontrar onde estão todos os 4 integrantes da expedição. Alguns estão bem camuflados. 

 

Encontramos duas ramificações laterais antes de chegar ao final da caverna. Exploramos uma das ramificações para perceber que ela dá uma volta e se conecta ao conduto principal de onde partimos.   A exploração dessa ramificação rendeu um causo. 

Enquanto estávamos no salão principal, pousando para fotos, foi o Alexandre quem primeiro entrou na ramificação avisando que iria ver até onde ela prosseguia. Depois de uns 10min, resolvemos seguir os passos de Alexandre pela ramificação lateral. E aqui era literalmente seguir os passos. Uma vez que, nesse local o piso estava forrado com uma lama viscosa e a nossa bota inevitavelmente afundava. Avançamos seguindo os rastros deixado por Alexandre até que os rastros desapareceram do nada!!!!

O conduto fechava a nossa frente, não tinha lugar algum para Alexandre está escondido tentando nos pregar alguma peça ou algo do tipo e ficamos sem ter explicação para o seu desaparecimento.

Após alguns minutos gritando o  nome de Alexandre sem nenhum retorno, finalmente ouvimos um barulho vindo de longe.


A explicação: Próximo ao local onde o conduto fecha tem um nível superior que não tínhamos enxergado, aqui o sedimento é mais fino e seco, Alexandre subiu sem deixar marcas, esse novo local desemboca em grandes salões e depois volta para os condutos com lama de onde partimos. 

Saímos da caverna por volta de 20h e ficamos com uma boa sensação de dever cumprido. No dia seguinte voltando para casa, ainda tivemos a oportunidade de contemplar o sítio da Cachoeira do Ferro Doido, um conhecido ponto turístico da cidade de Morro do Chapéu.

 

Da Esquerda para direita:Erickson Batista; André Vieira; Thiago Mattos e Alexandre Santos.


Chegando em casa, mostrando as fotos e contando os relatos para Ney, e a seu contato no Morro do Chapéu descobrimos que exploramos a caverna “errada” ou os condutos errados da caverna certa? Segundo eles (e os registros fotográficos confirmam) não fomos nos locais onde eles foram.  Questão que só poderá ser respondida no nosso retorno a Cafarnaum e revisitar a  misteriosa Toca do Nonato.

PARA QUE SERVE UMA CAVERNADA? SIMPLESMENTE PARA VOLTAR AO PONTO DE PARTIDA!

 


domingo, 29 de agosto de 2021

"A casa do capeta" - Crônica de Peter Tofte



"Passarinho que anda com morcego acaba dormindo de cabeça para baixo".

Dito popular.

A gruta da Boa Vista em Campo Formoso/BA é a maior gruta horizontal do hemisfério Sul com cerca de 120 km mapeados. A Bahia já tem o maior litoral, algumas das mais belas praias, a Chapada Diamantina e as mais altas montanhas do Nordeste. As vezes acho que devíamos cobrar taxa de visitação e visto para quem vem para o estado.

Cris e Fabio, que são espeleólogos amadores, se inscreveram numa lista de interessados, lançada pelo SEA – Sociedade Espeleológica Azimute, de Senhor do Bonfim/BA, para fazer parte de uma expedição na gruta. Por sua vez eles me inscreveram também após autorização do grupo.

Chegamos ao pequeno vilarejo de Pacuí as 21 horas de sexta feira onde encontramos a maioria do grupo hospedado na Pousada de Dona Derli. É área de caatinga, mas fazia 19°C.

Jorgean, um dos guias da região, disse que o nome Pacuí vem da matança de um porco. O cara faz PÁ e o porco CUÍÍÍÍÍ. Mas o que tinha mais era cabrito andando pelas ruas do povoado. Mais cabrito que gente.

Dia seguinte partimos depois de um café da manhã reforçado. A gruta fica apenas a 9 km de Pacuí. Após estacionarmos os carros André (fundador do SEA) fez um rápido briefing e nos equipamos.

Logo na entrada um desafio. Um ninho de abelhas no teto da caverna. Teríamos que passar em silêncio até chegar a parte escura. Pessoas já foram picadas anteriormente. Thiago Mattos foi na frente e o restante o seguiu espaçadamente. Esta é a entrada clássica da gruta, a entrada horizontal.

A entrada vista de dentro.




Ingressamos por um portão gradeado as 9:20 da manhã. O início da caverna é amplo e alto. Uma das galerias iniciais se chama conduto Afonso Pena, homenagem de um grupo mineiro a uma avenida de BH, grupo que iniciou a exploração sistemática da caverna.


Mas quanto pó neste trecho! Pó fino que nem talco na altura dos tornozelos. Cada pisada levantava uma nuvem de poeira.

A caverna é totalmente seca por isso cada um levava 6 litros de água na mochila. A estimativa era passar de 15 a 20 horas dentro dela.

Descendo. Embora a caverna fosse basicamente horizontal haviam altos e baixos.


O pior era a temperatura: 31 a 32° C com umidade superior a 90%, ambos medidos enquanto progredíamos.

Uma guanamite, estalagmite feito pelo guano de morcegos. André mostrou que eram morcegos frugívoros pois tinham restos de frutas e sementes nas fezes.



Com cerca de meia hora chegamos num ponto onde derivamos em relação a rota tradicional. Para evitar fazer um rapel de 12 metros pegamos um desvio com teto baixíssimo o que nos obrigava a rastejar rebocando a mochila (não dava para usar nas costas). Perfeito para quem é claustrofóbico.

Chegamos pouco depois no salão dos Discos Voadores onde bonitas colunas (união de estalagmites com estalactites) tinham um disco preso a meia altura, marca do nível da água há milhares de anos atrás. Um dos salões mais belos e especiais da gruta.

Salão dos Discos Voadores.



Após mais uma camnhada chegamos ao Shopping Center, área cheia de condutos laterais. Já estávamos cansados, o calor cobrando seu preço.

Numa galeria encontramos a múmia da coruja suindara. A primeira vez que André a viu foi em 2009 e ele disse que alguém já havia reportado a presença dela anteriormente. Penugem intacta. O calor e a ausência de micróbios e bactérias mumificaram o corpo da ave.

Coruja suindara mumificada.



Mais adiante, com hora e meia desde a entrada da caverna as claraboias (abismos do Sapo e do Bode) por onde a coruja entrou. As árvores na superfície estavam explorando o local através de raízes verticais que pendiam do teto até o chão da caverna. Luz, folhagens e alguns galhos entravam pelas estreitas claraboias e forravam o chão.

Junto a uma das raízes que entrava pela claraboia até o chão da caverna.



Paramos para relaxar e comer pois estava um pouco mais fresco.

Alguns fósseis e ossadas de animais encontrados na caverna são explicados por estas aberturas. Os animais caíram através daqueles buracos. Os nomes abismo do Sapo e do Bode tem origem na carcaça destes animais ali encontrados.

Seguimos com muito sobe e desce. No salão Quadrado descansamos e fizemos um lanche. Deixamos uma água mineral de 1,5 litros neste ponto e tiramos fotos do grupo com ajuda de iluminadores ao fundo. Este salão é o resultado de um desabamento de teto da galeria.

Foto do grupo no salão quadrado.


Ao sair dele, tivemos de descer uma fenda estreita.

Após cerca de meia hora chegamos na Fechadura, local onde os grupos espeleológicos também costumam deixar água em garrafas PET. O calor e a logística da água é o principal problema desta gruta.

As paradas de descanso estavam cada vez mais frequentes e longas.

Esta sala tem o nome Fechadura porque para continuar devemos passar escorregando através de uma estreita abertura num declive de 45º. As mochilas passam depois.

Passando pela fechadura.



Para alegrar a galera em seguida vinha o Caminho Baiano. Terrível, muito teto baixo forçando a andar de cócoras ou de quatro ou rastejando, quem não tinha joelheiras sofria.

Rastejo. Teto muito baixo. Como adorávamos!



Chegar ao Salão da Laje foi um alívio. Ninguém mais se sentava. Todo mundo logo se estirava no chão, barriga para cima. Ali alguns disseram que estavam exaustos, não dava mais para prosseguir. André, o líder, sugeriu parar mais adiante no salão Drago, onde tinha uma areia fofa para se deitar. Lá teríamos um descanso maior de 50 minutos.


Parando para amarrar o cadarço. Cris aproveitou para tirar uma foto e colocou a legenda "refletindo no banco mais antigo da Bahia". Reflexão abissal esta.



Prosseguimos e após cerca de meia hora chegamos no Drago. A areia fina estava convidativa e todos se deitaram. Alguns pegaram no sono instantaneamente. Todos com roupa molhada de suor. Ao deitar na areia virávamos um bife à milanesa.

Eu e mais dois sofredores avisamos que esperaríamos ali. Estávamos exaustos e pensávamos já no esforço que seria feito para voltar. Meu sentimento era que se continuasse não teria energia suficiente para regressar a boca da caverna.

Já fazia algum tempo que sentia alguns sintomas do que os americanos chamam de heat illness (mal do calor) quando o corpo não consegue dissipar o calor produzido pelo esforço físico e a temperatura corporal aumenta. No meu caso o principal sintoma é o aumento do batimento cardíaco que não diminui com o descanso (já senti isto uma vez subindo uma serra íngreme da Chapada Diamantina debaixo do sol do meio dia).

Com o aumento da temperatura corporal o organismo dilata os vasos superficiais, aumenta a frequência cardíaca e o fluxo de sangue é desviado para estes vasos perto da pele para acelerar a perda de calor. Mas quando estamos exercitando e o ambiente está muito quente o processo não funciona bem. Pode levar a vertigem, visão de túnel e fraqueza (e como me sentia fraco). E, por fim, o desmaio.

Algumas pessoas já tiveram alucinações nesta caverna, provavelmente pelo calor excessivo. Parecia que visitávamos a casa do capeta!

Assim fiquei com mais duas pessoas no salão Drago. Combinamos que entre 20:30 e 21:30 os demais estariam de volta. Iriam para o salão dos Mortos Vivos, nome dado porque os espeleólogos chegam lá mais mortos do que vivos.

Tirei o macacão laranja encharcado de suor e vesti uma calça leve de trekking. Enfiei o macacão na mochila. Comi alguma coisa e me deitei sem camisa para melhorar a dissipação de calor. Desligamos as headlamps mergulhando na escuridão e tentamos dormir. Mas por 3 horas não consegui adormecer. Os meus dois companheiros penso que dormiram um pouco.






O pessoal regressou exatamente as 20:30. Estavam exaustos.


Retorno


Retomamos o caminho. Me sentia bem melhor.


Longa volta. A caverna é tão labiríntica que por vezes os espeleólogos experientes que estavam na frente perdiam o caminho e tínhamos que dar meia volta até redescobrir o correto. Imprescindível um mapa da caverna com os pontos de marcação plotados. Quando encontrávamos um ponto (uma fita com um código escrito) se verificava no mapa onde estávamos. Foram necessárias ao menos 21 expedições de grande porte desde 1987 para mapear estes 120 km de labirintos.


Fábio estava ajudando muito neste processo de localização para achar a rota de saída sempre que havia dúvida.


Na foto abaixo quem está na dianteira está consultando uma prancheta com o mapa. Se perder numa caverna é muito pior do que na superfície.



Cada salão reconhecido era uma alegria, um pouco mais perto da saída. Paramos para uma dormida de uma hora na Fechadura. O duro era despertar, levantar e depois recomeçar.

Num trecho de exposição inspirei poeira e comecei a tossir. Senti um engulho e vomitei água (estava procurando beber bastante para não desidratar). Parte do vomito bloqueou a via aérea e veio a sensação de sufocamento. Após três inspirações desesperadas recuperei o fôlego. Cris, que estava logo atrás, me afastou da beira do precipício. Meu anjo da guarda. Segui e me sentei. Ainda vomitei duas vezes água. A náusea é também um sintoma de heat illness.

Já estávamos no salão do Livro, onde há um livro para assinatura dos visitantes. Estava tão cabisbaixo, abatido e envergonhado que pedi para Fábio preencher meu nome no livro.

No abismo do Sapo sentimos um pouco do frescor. O ar a 31ºC devia subir para a superfície e entrava o ar a 19º C. Senti até um friozinho na camisa molhada de suor. Comi algo e bebi água.

As bonitas formações fotografadas por Cris ao longo da gruta.







Estávamos a uma hora da saída. Cada passo adiante era uma conquista.

Pouco antes da saída, no último rastejo o grupo se dividiu em dois. Eu e Paulo bombeiro acabamos pegando uma derivação a esquerda e descemos uma ladeira bem íngrime e escorregadia. Os companheiros notaram o erro e fomos forçados a subir aquela encosta quase sem agarras. Mas uma mão providencial nos ajudou a chegar no topo e retomamos para o caminho correto.

Mais 40 minutos percorrendo o empoeirado conduto Afonso Pena e chegamos no portão. Ar fresco! Que alegria! Que diferença aquele friozinho em relação ao interior da caverna! Deixamos a caverna as 03:40 da madrugada de domingo, quase 18 horas e meia contínuas debaixo da terra.

Nunca saí tão exausto, imundo e esfomeado de uma aventura. Percorremos pelo menos 18 km por um trajeto acidentado e difícil.

Chegamos cansadíssimos na Pousada de D. Derli.

Tomei um banho frio caprichado, com duas ensaboadas e enxaguadas. Mas ao me enxugar fiquei espantado com a sujeira que ainda ficou na toalha. O pó e a terra entranharam nos poros dilatados!

Vestindo roupa limpa fui comer. Dona Derli tinha preparado um cabrito assado, ovo frito, feijão, arroz, abóbora e feijão de corda. Devoramos! A claridade começou a despontar no horizonte. Estava amanhecendo. Na ocasião D. Derli, que é crente, disse que jamais entraria na gruta porque ali era a casa do demo. No meu pensamento eu concordei. Com aquele calor realmente é a casa do capeta! Mas casa bonita que valeu muito a pena visitar apesar do desgaste. Diferente de tudo que conhecemos apenas pisando acima da terra.

As excelentes fotos deste relato são todos da talentosa Cris Macedo, tiradas a partir de um smartphone.

Membros da expedição: Andre Vieira de Araújo, Cristina Alves de Macedo, Fabio Dal Gallo, Danilo Araújo, Eugênia (até hoje não conta aos pais aonde vai kkkk), Jessica Carolyne, Jorgean Silva, Juliano Racha Pindobaçu, Laio Araújo, Leonardo Bamberg, Matthaus Dartagnan e Thiago Mattos.

Recomendações


A gruta é bela mas NÃO é turística. Só vá com um grupo de espeleologia experiente ou com guia que conhece muito bem a caverna. E se prepare para uma das experiências mais especiais (e exaustivas) de sua vida. É Aventura com A maiúsculo.

Acesso livre. Não se cobra para entrar na gruta.

Foi a minha primeira gruta não turística. E comecei pela maior e uma das mais difíceis sem o devido preparo devido a pandemia. Ela exige um bom condicionamento físico.

Procure se aclimatar com 10 dias de antecedência a uma temperatura de 32º C. Ajuda no processo (recomendação do Manual da NOLS, Wilderness First Aid).

Não leve máquina fotográfica. A poeira é tão fina que vai entrar na câmera exigindo depois uma limpeza interna trabalhosa e cara. Leve um smartphone bem protegido.

Se pretende passar de 15 a 20 horas na gruta, carregue no mínimo 6 litros de água.

Use uma mochila específica de espeleologia. As de trekking e montanhismo não aguentam o tranco. A que usei, excelente, eu tomei emprestada de Fábio e Cris (fabricação própria deles).

Calce uma bota velha, na qual ainda confia. Se usar uma nova ela vai envelhecer 5 anos numa só expedição.

Embora macacão seja necessário numa caverna deste tipo (devido ao rastejo) tente vestir um mais leve por causa da temperatura. Na volta acabei retirando-o devido ao calor. Joelheiras também são necessárias se quiser poupar seus joelhos.

Capacete, imprescindível. Muito teto baixo e irregular esperando você para dar uma boa cacetada na sua cabeça. De preferência aqueles capacetes de montanhismo.

Guia da gruta: o Thiago Mattos (muito bom e grande conhecedor da caverna) e Jorgean (também conhece muito a gruta e é o guia mais ativo da região).

Página do SEA:

http://seazimute,blogspot,com/?m=1 (com bons relatos de explorações de cavernas)

Pousada Pacui, da Derli. Não se esqueça de encomendar um cabrito assado.

Agradecimentos.

Ao André Vieira Araújo, fundador do SEA pelo trabalho maravilhoso de muitos anos explorando as grutas do interior da Bahia.

Aqui ele no briefing antes de entrar na caverna, dando as ultimas orientações.

A todos os companheiros da empreitada, veteranos de espeleologia, atenciosos e solidários com os inexperientes. Pessoal muito gente boa do sertão da Bahia e de Pernambuco.

Aos amigos Cris e Fábio por terem me chamado para esta expedição e por todo o apoio. Sempre gentis e cuidadosos. Os melhores companheiros que alguém poderia desejar para uma aventura.

quarta-feira, 7 de outubro de 2020

O BRILHANTE RETORNO DAS AVENTURAS SUBTERRÂNEAS- Uma crônica de Leonardo Bamberg

 Após vários meses sem expedições em virtude da pandemia do coronavirus, finalmente organizamos nossa expedição de retorno. Com o decréscimo no número de casos Covid19 e a abertura dos espaços públicos, pudemos traçar a rota que nos guiaria à próxima aventura. O destino era o povoado do Mulungú, situado no interior de Campo Formoso - BA, onde haviam duas cavidades inexploradas. Após algumas reuniões virtuais, montamos o roteiro a ser trilhado.

- Saindo de Petrolina: André, Bamberg, Eugênia, Brenda e Jéssica

- Saindo de Salvador: O casal Fabio Galo e Cristina

- Saindo de Caem: Emerson Cajado, embarcando Juliano (Juliboy) em Pindobaçu

- Saindo de CF: Josan (J) e sua esposa Adriana, acompanhados de Jorgean (Demolidor)  

O ponto de encontro de todos os grupos seria no povoado de Lage dos Negros, localidade já referência à desbravadores dos segredos subterrâneos escondidos nessa região emblemática, perdida no grandioso e amado sertão baiano.

Partimos de Petrolina por volta das 08h da manhã em busca de nossa aventura, tendo André na direção do SEA móvel e o rockroll fazendo a trilha sonora. Como estávamos adiantados em relação aos demais, André optou por garantir pelo menos uma cavernada e nos levou para conhecer a Gruta do Cesário, bastante acessível no nosso trajeto. A caverna, apresenta um longo conduto sinuoso e de diâmetro variável, sem salões ou claraboias até onde conhecemos e presença de água em seu interior. Fizemos algumas fotografias e retornamos já combinando que esta caverna seria destino de uma futura expedição, objetivando realizar sua topografia e conhecer a sua total extensão.

Seguimos para o povoado de Lage dos Negros, onde chegamos perto do meio dia. Depois de almoçar, encontramos o restante do grupo. Um alívio poder rever os irmãos de espeleo. Tendo garantido a janta e embriaguez da noite num mercadinho local, voltamos a estrada. Pausando em cada lugarejo para Josan cumprimentar velhos conhecidos e possíveis eleitores. Nossa última parada foi no povoado do Mulungú, onde encontramos com Manelão e seu genro Ítalo (quem falou com Jorgean sobre a existência da gruta). Já orientados sobre a “proximidade” da fazenda do Popó e “boa estrada” que encontraríamos, embarcamos ítalo e partimos para nosso destino final. Realizamos o percurso de quase uma hora num tapete encrustado de pedregulhos. O SEA móvel sofre👀

Encontro no Mulungu- Da esquerda para direita: Fábio, Cristina, Jéssica, Fael, Juliano, Brenda, André, Manelão, Jorgean, Bamberg, Eugênia, Ítalo, Cajado, Josan e Adriana.


Chegamos ao nosso destino quase no por-do-sol, cansados da viagem, mas encantados pela beleza local. Encontramos uma paisagem de paraíso perdido no meio do sertão, havendo um rio margeando a propriedade, com duas cachoeiras a poucos metros, nas quais tivemos nosso banho reparador. Banho este em aguas de temperatura quase morna. Uma boa massagem era realizada pela caída d’agua sobre as costas. A sensação de paz e harmonia pairava sobre o lugar. Tendo a bateria corporal 100% carregada, montamos nossas barracas, acendemos a fogueira e preparamos a comida. Passamos a noite bebendo (destacando a boa cerveja produzida por Fabio galo, além da já conhecida cachaça Jamaica), conversando, rindo e nos conectando. Fizemos valer o real sentido de toda e qualquer expedição. A felicidade simples e verdadeira, sentida nesses raros momentos. Sobre nossas cabeças, um imenso céu estrelado. Mesmo cansados, tardamos. O tempo foi caminhando sem se ver. Jorgean esbanjando seu novo porte fitness, pesando cada grama de comida que colocava no prato. Juliano ia contando suas boas e velhas resenhas. Presenciamos Cajado constrangido após o relato de sua cena bizarra adubando o mato (pego em flagrante por Juliboy). Enquanto isso, o pobre cachorro que rodeava o local foi injustamente acusado de soltar gases praticados por terceiros. A SEA é repleta de ogros. Conhecemos melhor nosso italiano-brasileiro cervejeiro (Fábio Galo) e sua ilustríssima companheira (Cristina). Ouvimos os velhos causos de Josan. E assim, já no ultimo gole, da última dose, vendo a última chama da fogueira se apagar, fomos dormir, pois todo carnaval tem seu fim.




Registro do Acampamento.


Clareou! Um sol radiante e motivador apontou no céu. Fez Jéssica ir tomar banho de cachoeira 05 horas da manhã. Estiramos as pernas e alongamos o corpo. A hora de cavernar chegou. Bem verdade que eram poucas as esperanças de encontrar boas cavernas naquela propriedade. O terreno local era composto por rochas de arenito, pouco propícias ao desenvolvimento de grutas com amplas dimensões e ornamentações, sobretudo quando comparadas as cavernas em calcário. Mas, seguimos em frente sobre o mantra “a melhor caverna é a próxima”.

 

Ainda na propriedade, caminhamos alguns metros e encontramos a primeira cavidade. Sua abertura permitia a passagem folgada de uma pessoa, porém, a profundidade, cerca de 4 metros, exigia técnica vertical. Como não tínhamos cordas para rapel no momento, fomos verificar a segunda cavidade logo ao lado. Esta explorada por mim e Jorgean, tinha uma abertura estreita e não apresentava desenvolvimento após a passagem quase completa de um corpo (nada mais que um grande buraco no solo). Voltamos a apostar na primeira cavidade, sendo obrigados a pensar em uma estratégia de descida. Tendo descartado a possibilidade de descer usando as paredes da caverna por falta de apoio nas pegadas, a única alternativa era improvisar o rapel usando uma corda calibrosa encontrada na propriedade (usada para laçar boi). Avaliamos a corda, os pontos de ancoragem e o melhor jeito de descida. Coloquei a cadeirinha de espeleo e fiz a descida, com o olhar tenso dos que me assistiam. Rapidamente toquei o solo, tendo a sensação de alívio e segurança. Agora visualizava melhor o pequeno salão inicial da caverna. A impressão dos 4 metros vistos de cima é diferente sendo visto por baixo. A altura entre o piso e a abertura acima parecia mais curta. Soltei da corda e parti para a exploração, identificando o desenvolvimento da caverna em uma direção. Caminhei alguns metros e percebi que a caverna era maior que o esperado, tendo água em seu interior e mais desenvolvimento (a grande surpresa). Voltei e avisei o pessoal, descendo logo em seguida André, Jéssica, Fael, Brenda e ítalo.  


O  medo e a recompensa de ser o primeiro a chegar onde ninguém ainda chegou!

A caverna, presente a pouquíssimos metros do rio que corta a propriedade, era constituída de arenito, iniciando com um salão pequeno. O desenvolvimento seguia em uma única direção, com o aparecimento de um segundo salão, com o teto um pouco maior que o primeiro (cerca de 4 metros), com desenvolvimento na esquerda inferior, direita superior e direita inferior (estas ultimas se comunicavam). A esquerda inferior prosseguia poucos metros até chegar em um rastejo com possibilidade de desenvolvimento (não explorado). A direita superior seguia frontalmente até chegar em um rastejo não explorado. Seguimos a direita inferior, chegando uma pequena poça de agua escura e um rastejo cujo seguimento alcançava um espaço de teto baixo. As paredes apresentavam sinais de alagamento recorrente e estalactites formadas de arenito, em gotejamento insidioso. Além disso, havia nesse local agua brotando entre as rochas, formando uma pequena corredeira que adentrava outro rastejo a frente, com possível desenvolvimento vislumbrado. Haviam ainda na caverna morcegos, grilos e aranhas caranguejeiras. Em resumo, a impressão que tive era uma caverna com vetor de desenvolvimento orientado para baixo, com poucas ramificações, e grande dinâmica em relação a matéria orgânica e circulação de água. Retornamos a superfície auxiliado pela corda e alguns apoios nas paredes, sem acidentes durante a cavernada. 



Registro de rarissímo espeleotema em rocha siliciclástica, encontrado na Toca do Popó!

Antes da saída presenciamos um raio de luz que chegava a partir da fenda e que emoldurava o primeiro salão da caverna.

Detalhe do estreito salão onde observamos a água sumir na rocha!

Finalizamos a cavernada, mas a expedição continuava. Fomos convidados a percorrer uma trilha no meio da caatinga até chegar em duas belas cachoeiras. Nas proximidades, haviam ressurgências d’água e pegadas de um pequeno felino. De volta ao camping, fizemos um almoço simples e eficiente e o descanso final para o retorno. 

Depois de todo esse enredo: camping, cerveja, conversa, risadas, caverna, trilhas e cachoeiras, podemos enfim chegar em nossas casas com paz e saúde. Ficou a sensação de uma expedição completa em todos os sentidos. Tivemos a oportunidade de sanar nossa abstinência por aventura, pelo meno s nos próximos dias. E não somente isso. A expedição mostrou como é importante estar em comunidade, conectados por algo além do wi-fi; que devemos trocar informações e conhecer novas pessoas; que aprender algo novo deve ser algo constante; o valor inestimável de uma cerveja gelada, uma boa conversa e rir em conjunto; a beleza de um céu estrelado; como é preciso lutar pela conservação do meio ambiente; como é bom não perceber o tempo passar. Por fim, desejo que a chama espeleológica da SEA continue a brilhar nos nossos corações aventureiros e que a próxima expedição não demore a chegar.  

Obs: importante destacar a marcante presença feminina nesta expedição, representada por Jéssica, Eugênia, Brenda, Cris e Adriana (que sejam constantes e que tenham paciência com os ogros).





Foto oficial da expedição 09/2020.





segunda-feira, 18 de maio de 2020

3 lições no Talhado do Lixão



O Talhado do Lixão ganha esse nome por está situado próximo de um depósito de lixo a céu aberto cerca de 30 km da sede de Campo Formoso-BA. Essa área que denominamos de Carste Tiquara, tem uma quantidade boa de afloramento com algumas cavernas conhecidas e atualmente está inserida em uma área visada para parque eólico. 


A chegada no lixão é sempre uma imagem devastadora, encontrar com famílias vivendo em barracos improvisados e disputando lixo com urubus é de uma tristeza sem tamanho. 

O encontro com a comunidade do lixão.


Poucos metros após o lixão, nos deparamos com o inconfundível afloramento com um enorme bloco calcário tombado.

A " Self" oficial da expedição com o afloramento ao fundo. Da esquerda pra direita: André Vieira Araújo; Dyego Magalhães, Jorgean Silva, Emerso "Aspira" Cajado e Thiago Mattos.


Apesar da pequena entrada, não tivemos dificuldade de acesso e sem demora começamos a topografar; A caverna é pequena e alterna desde o seu início, pequenos salões arrendondados fáceis de topografar com fendas altas e passagens estreitas que trazem um pouco mais de dificuldade.

Detalhe da entrada relativamente estreita

Os salões da caverna seguem esse aspecto com teto baixo e piso repleto de sedimento clástico. 

Próximo a entrada a caverna apresenta algumas fendas altas.

Tudo corria bem até que Thiago começou a tossir e espirrar ininterruptamente, ele avisou que estava com alergia ao sedimento que iria tomar um antialérgico e ficar próximo a entrada que tem menos sedimento e maior ventilação. A essa altura já estávamos quase finalizando a topografia, restava uma dessas pequenas passagens que normalmente não dão em nada.

Aqui aparece nossa primeira lição:  Nenhuma passagem pode ser subestimada!

Eu lembro que perguntei a Jorginho se prosseguia, ele se abaixou olhou a passagem e disse que achava que fechava. Eu respondi que não custava ir conferir, e para minha surpresa a passagem se abria em um pequeno salão. Apesar, da preguiça, falei que deveríamos terminar logo, para não precisar voltar outro dia por causa de um pequeno trecho. Enquanto rolava essa discussão Thiago ainda estava afastado se recuperando da alergia. 


E decidimos continuar a topografia sem Thiago, acreditamos que seria coisa rápida, pois, se continuasse a se repetir o padrão observado até então, seria um pequeno salão que encerraria em passagens entupida de sedimento. 

Um registro da passagem que quase subestimamos. 


A 2ª lição que aprendemos no Talhado do Lixão é: Em nenhuma hipótese se abandona um membro da equipe!

Acabou que esse novo trecho era completamente diferente do padrão observado até então na caverna, muito mais alto e longo e, portanto, mais fácil de topografar que ficamos empolgados topografando esse trecho promissor, e com isso esquecemos de Thiago. 

Felizmente, não aconteceu nada demais, na verdade Thiago pegou no sono, e depois que acordou ficou aguardando a gente no último ponto em que ele nos viu. Mas, ficamos muito reflexivo pensando em como fomos negligentes com a situação. E se o antialérgico não tivesse sido efetivo? Se Thiago começasse a ter uma crise ou choque anafilático? Estaria sozinho e não teria qualquer chance.  Foi uma preciosa lição que nunca vou deixar ocorrer outra vez.


Um registro de um crânio de porco do mato que encontramos logo após a passagem estreita.

Essa expedição ocorreu em janeiro de 2019, quase uma ano e meio depois da expedição e nunca fizemos os mapas digitais, e essa é a terceira lição: Não procrastinar a parte do tratamento dos dados.



Detalhe de um crânio de morcego em cima do croqui que até hoje espera para ser transformado em mapa. 

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

A inesquecível expedição TITANIC


A Toca da Barriguda é de longe a caverna que nós da Sociedade Azimute mais visitamos!  Primeiro essa caverna está praticamente no nosso “quintal” (à 2h de carro tanto pra quem sai da sede de Campo Formoso quanto pra quem sai de Petrolina) oferece a melhor logística para o grupo.  Além disso, é uma caverna espetacular que não cansamos de contemplar sua beleza e respeitar seus desafios.
No entanto, em quase 10 anos de expedições nós praticamente frequentamos apenas um dos lados dessa que é considerada uma das maiores cavernas do Brasil.
[Para situar o leitor sobre os caminhos no interior da Barriguda, observe na figura a seguir um mapa parcial da caverna. A cerca de 500 metros da entrada está o Salão do Urso e logo a frente a esse Salão existe um ponto de ramificação em que a caverna abre 2 largos condutos um para leste e outro para oeste  (Claro que é uma simplificação, a caverna não é linear é sempre labiríntica e leste e oeste não significa que necessariamente os condutos vão seguir sempre nessa direção)]


Essa ramificação que chamamos simplificadamente de lado leste e lado oeste embora formem condutos relativamente próximos entre si, são dois mundos completamente diferentes.  O lado “leste” por ser mais labiríntico, ter mais passagens com difícil acesso foi historicamente pouco explorado por nós.  Tivemos uma expedição em 2014 batizada de expedição Homem Geleia (nome dada a uma das passagens estreitas que temos que rastejar nos contorcendo);  Juntamente com uma expedição para o Salão Mirim em 2016 foram até então nossas únicas investidas para o lado leste da Toca da Barriguda.

Alexandre Santos na Passagem do Homem Geleia.

Dessas duas expedições a mais distante foi a de 2014 até a “Passagem do Homem Geleia” e analisando os mapas calculamos que esse ponto é a metade do caminho até o Conduto Titanic que é o ponto mais distante da entrada seguindo esse lado da caverna. Pois estava na hora de deixar a marca do homem geleia para trás e alcançar novas marcas mais distantes. O objetivo da expedição de dezembro de 2018 era audacioso, chegar ao final do Conduto TITANIC.


Essas expedições em caráter esportivo e  de aventura  tanto na Toca da Barriguda quanto na Toca da Boa Vista são muito empolgantes e a animação começa estudando os mapas das cavernas e se divertindo como os nomes que foram dados aos salões e condutos pelos pioneiros na exploração espeleológica das Tocas.
Após a passagem do Homem Geleia  por exemplo, teríamos que passar por lugares conhecidos como: Passagem dos mergulhadores; Conduto do Delírio; Conduto das Piscinas japoneza;  Pista de Patinação e finalmente chegar no Conduto Titanic. Ao ler esses nomes e (sem ter ideia do porque foram batizados assim?). Nossa imaginação fica aguçada e a adrenalina começa muito antes da visita. 


Essa foi a última expedição do ano de 2018, na ante véspera do Natal. O time que partia de Petrolina contava com os seguintes integrantes: André, Thiago, Bamberg o Matthaus (Smigol) e sua irmã Lisa.  Já por Campo Formoso estavam em um mesmo carro o Juliano e dois convidados dele (Leandro e o Binho) e os veteranos Alexandre e Jorginho.
Os dois grupos que partiram de cidades diferentes se encontraram por volta de 10h no povoado de Pacuí. Como já é de costume, lá na pousada da Derly, nos reunimos pra acertar os últimos detalhes e principalmente a refeição pós cavernada.

Foto oficial da histórica expedição Titanic. Em pé: Leandro, Binho, Alexandre, Juliano, Smigol e Lisa; Agachados: Thiago, Jorginho, André e Bamberg.

A cavernada começou em um ritmo bom, em poucos minutos já estávamos na bifurcação e seguindo em direção ao lado leste, o planejado era fazer o primeiro ponto de parada no amplo Salão Mirim.  O aspecto labiríntico e pouco sinalizado torna esse trecho até o “ Mirim “ um dos mais cansativos (Imagine que você tem várias opções de túneis para seguir, ai você escolhe uma opção e logo mais a frente aparece novas opções e a nova opção que é escolhida não dá em lugar algum, aí ficamos indo e voltando por entre essas entradas até encontrar o veio principal). Foi nesse trecho que ocorreu o primeiro drama da expedição.  O Leonardo Bamberg estava procurando uma passagem e em uma área acidentada com muitas fendas  calculou mal um pulo e quase foi parar no fundo de um abismo, foi salvo por Jorginho que conseguiu a tempo segurar no seu braço e impedi a tragédia. Até hoje Bamberg agradece a Jorginho por essa ocasião.


Antes de chegar ao Salão Mirim deveríamos passar pelo: “ Conduto cachorrinho de coleira amarelinha” é um lugar em que um espeleotema lembra um corpo de um cachorrinho e em que foi colocado uma fita amarela ao redor do espeleotema que ficou parecido com um cachorro de coleira. Esse ponto era uma referencia pra gente saber que já estávamos próximo do Salão Mirim.  Dos integrantes dessa expedição apenas eu,  Jorginho e  Alexandre conhecia esse ponto. E não entramos em consenso se já tínhamos ou não passado por o tal “cachorrinho”. Para nossa surpresa descobrimos, que o “ cachorrinho” estava sem a “ coleira”  a fita foi propositalmente retirada do espeleotema provavelmente para que deixasse de ser um local de referencia e tornasse ainda mais difícil chegar no Salão Mirim. Lamentamos muito esse fato.  E certo ou errado decidimos deixar uma nova coleira no lugar! 




O cachorrinho de coleira amarelinha em 2014



       


Descanso merecido no amplo bonito e arejado Salão Mirim.




Decidimos descansar no Salão Mirim para em seguida encarar a Passagem do Homem Geleia. Pouco antes de chegar á temida passagem os dois convidados que Juliano trouxe para a expedição (Leandro e Binho) já estavam apresentando claros sinais de exaustão, um deles que não lembro qual, já estava com fortes câimbras e dizia que tinha chegado ao limite do esforço físico. Ponderamos se valeria a pena descansar mais um pouco antes de tomar uma decisão de seguir ou abortar. Depois de uma pausa, e de praticamente acabar com as suas reservas de água, Leandro e Binho decidiram que iriam continuar. E com sucesso todos atravessamos a complicada passagem que exige habilidades de contorcionistas. 



A partir de agora a expectativa seria chegar até aguardada passagem dos mergulhadores. Antes tivemos um contratempo. O caminho que levava a passagem dos mergulhadores exigia passar por um nível superior e até escalamos pra alcançar esse nível, porém, chega certo ponto que só é seguro atravessar com ajuda de equipamento vertical e não estávamos contando com esse imprevisto. 

Os irmãos Lisa e Mathaus (Smigol) escalando com a técnica chaminé para ter acesso ao nível superior.

Já estávamos conformados que ali seria nossa nova marca e em uma próxima expedição com cordas quem sabe chegaríamos até o Titanic. Enquanto retornávamos Thiago chamou nossa atenção para uma remota possibilidade.  Observando o mapa ele identificou uma passagem não mapeada que tinha o potencial de encontrar o trecho após o nível superior. Uma chance de continuar se apresentava, mas apesar disso, a galera não estava muito animada e isso por duas razões:
1. A nossa água estava acabando e quem já foi em uma caverna quente e úmida e sabe que ter quilômetros pela frente pra caminhar até à saída sem água para beber sabe o quanto isso é sério;

2. A passagem que Thiago encontrou e que poderia levar até a nossa rota rumo ao Titanic era muito menos que minúscula fazendo a passagem do homem geleia parecer fácil.

Decidimos o seguinte, eu iria conferir se era passável e se uma vez passando pela estreitíssima fenda daria em algum caminho marcado no mapa. Fiz e isso e sinalizei pra turma que podiam fazer a passagem que dali conseguiria seguir nossa trilha. O próximo a tentar a passagem foi Thiago e ele tentou, tentou e tentou de todas as formas e não conseguia passar, chegou a tirar o macacão pra tentar passar só de cueca e sem efeito, acho que foi a primeira vez que Thiago passou por esse tipo de frustração.  Se a turma já estava desanimada antes, agora estavam ainda mais com a dificuldade que se apresentava.  Smigol, Bamberg e Lisa tentaram e conseguiram me encontrar do outro lado da passagem. Mas ou demais não estavam nem querendo tentar.  Passamos mais de 1h nesse impasse até que com muita força de vontade e muito esforço todos conseguiram passar. Agora restava o dilema da água!

Reuni a turma e argumentei o seguinte: - Apesar de nunca ter andado por esse lado da caverna, tudo indica que encontraremos água na passagem dos mergulhadores e então estaria resolvido o dilema da água. Além do mais propus que a partir desse ponto a gente iria racionar a água e iriamos determinar pontos onde todos iriam beber apenas um gole.  Pra se ter uma ideia da nossa situação, estávamos em 10 pessoas e juntando todas as águas em uma única garrafa conseguimos cerca de  1,5 L e alguns goles em um ou outro cantil individual.

Reencontramos a nossa trilha e seguimos até encontrar a passagem dos mergulhadores e advinha só? Nada de água! Tão seco como qualquer outro canto da Toca da Barriguda. Até conseguimos perceber que o lugar era úmido e as marcas de água recente na parede.
  Que ironia do destino, a nossa preocupação inicial era ter que passar com água no pescoço nessa passagem e agora o que mais nos preocupava era a ausência de água.
- Ah, mas tá perto eu voto em seguir em frente! Disse Juliano.
Caminhamos um pouco mais e chegamos ao Conduto do Delírio.  Não demorou a perceber que estávamos caminhando e passando pelo mesmo lugar. Andamos em círculo nas passagens do delírio!  Definitivamente o cansaço tinha chegado. A desidratação começava a fazer efeito, é hora de voltar.
- Ah, mas tá muito perto, eu não vim aqui pra desistir agora! A gente consegue!! Insistia Juliano.

Chegamos até as piscinas japonezas que deve ser muito lindo com água, mas que naquele momento estava completamente seco e agora pra seguir  pra o Titanic tinha que andar de joelhos em um chão espetado de pontiagudas mini estalagmites. Torturante e definitivamente dividiu o grupo.
Binho que a esse ponto já andava no automático deitou e disse que iria esperar até a gente voltar do Titanic, Alexandre ficou com ele e os demais seguiram até finalmente encontra a nossa meta.
O Conduto Titanic é um longo conduto com teto a meia a altura e o piso branco forrado de um tipo de espeleotema chamado “ jangada” esse espeleotema é um indicativo que o conduto ficou alagado durante muito tempo. 
 Uma foto especial no Conduto Titanic. O piso branco repleto de jangada contrasta com um teto amarelado. 

Tiramos uma foto e retornamos em um dos maiores sufocos que já passei, tendo que regular cada gole de água até a saída. Todos desidratados tropeçando-nos próprios passos.  A caminhada de volta para a saída pareceu uma eternidade, mas enfim finalizamos e escrevemos mais uma grande aventura espeleológica nas nossas vidas! 


 Por: André Vieira de Araújo