Páginas

segunda-feira, 1 de junho de 2026

EXPEDIÇÃO ABREUS - NEM TU NEM EU por Leonardo Bamberg

 Diante de um raro fim de semana sem compromissos, lancei no grupo a ideia despretensiosa de mais uma expedição. Após o tradicional "vou, não vou" dos indecisos, a missão foi selada: explorar as imediações de Abreus, distrito de Campo Formoso (BA), convite prévio do amigo Val do Léle. Saímos de Petrolina-PE eu (Bamberg) e André, ainda no auge dos seus 33 anos. Partimos em busca de um pouco de caos organizado. No som, Los Hermanos embalava conversas sobre a vida e a paternidade futura. No meio do caminho, veio a lembrança do tanque quase vazio. Realizamos uma parada rápida para abastecer e garantir o estoque de água e petiscos. Um hora e meia de asfalto e terra, completamos o time:  escalação com Jorgean (o "Demolidor"), Val do Lelé (o homem da mídia) e Ciel Brejão (o blogueirinho das aventuras). A velha guarda já estava ali no povoado coletando informações com moradores locais, um deles mudo. Jorginho dialogava com ele através de grunhidos e gesticulações, optando pra mim e fazendo gestos afeminados com a mão. Eu tentava sem sucesso desfazer o equívoco. 


Os integrantes da expedição pré cavernada. Leonardo Bamberg e André Vieira no carro, Jorgean Silva, Ciel Brejão e Valber Freitas sentados na calçada.

Depois do momento da quinta série, já com a formação do quinteto, partimos para a Toca do Caboclo, próximo ao povoado.
Estacionado perto do lajedo, conjecturei que a gruta seria pequena e que seria um dia quente. Com esse meu cálculo, optei por não colocar o macacão de nylon. 

Apostei na camisa de manga longa e calça ripstop, sem saber o preço da escolha.

Nos deparamos com o  lajedo cárstico (lapia). Um campo minado, com espinhos de coroa de frade espalhados de forma camuflada do calcário cinza e afiado. A paisagem tem um tom extraterrestre, mistura de caatinga com solo lunar. Alguns metros de caminhada, chegamos na primeira toca. Esta chamava atenção não pelo desenvolvimento, mas pela presença de pinturas rupestres. A maior delas representava um animal de cauda longa e espichada na ponta, remetendo-se a um tatu pré-histórico extinto, vigiando a entrada do tempo. 


Visão do carste da região de Abreus.


Entrada Toca dos Caboclos I


Andamos poucos metros ao lado para chegar na Toca do Cabloco.  A entrada horizontal, com altura próxima aos 5 metros.
Uma passagem apertada ao fundo dava acesso ao seguimento da caverna, que apresenta dois pisos. A parte superior tem um desenvolvimento horizontal de alguns metros frontalmente. Já a parte inferior, acessada por um pequeno abismo de 4 metros, é responsável pelo maior desenvolvimento da caverna e abriga a maior parte das descobertas.


Entrada Toca dos Caboclos II

Acesso ao nível inferior da Toca dos Caboclos II



Logo ao descer, notamos uma caverna ativa do ponto de vista biológico. Identificamos ao menos três espécies de aranhas (marrom, caranguejeira e...), morcegos, grilos, centopéias e amblipígios em grande quantidade. Além disso, umidade elevada, com solo úmido, gotejamento, caminhos de água, o que deixava a temperatura algo agradável.

Seguimos explorando a gruta, podendo ficar boa parte do tempo de pé ou curvados no seu desenvolvimento principal, com algumas pequenas ramificações de teto baixo que fecham ou ficam muito apertadas. Ao longo da exploração, Ciel e Val produziam seus vídeos para as redes sociais, com os astros Jorgean e André no papel de comentarista, padrão Discovery Channel.


Alguns registros da biodiversidade da Toca dos Caboclos II. 


No terço final da caverna, o caminho vai afunilando gradativamente até a impossibilidade de passar. No trecho final, ainda seguir metros por rastejos super apertados, cheios de aranha marrom. Foi bem nesse conduto final, já retornando, que senti um incômodo pontual na barriga. 

No retorno, André ainda conseguiu identificar em meio a sedimentos úmidos um crânio de felino, possivelmente uma jaguatirica. Saímos dali felizes pela descoberta de uma cavernada com boa amplitude e rica em recursos  espeleológicos.


Rastejos no terço final da Toca dos Caboclos.


Val segurando o crânio fóssil de um felino.

Continuamos a prospectar o calcário à procura de uma dolina conhecida por Val. Achamos um buraco fundo pra caracoles, sem possibilidade de descida no momento. Decidimos ir almoçar próxima e retornar para uma tentativa. Porém, já eram 13h e as possibilidades de almoço estavam esgotadas nas comunidades próximas. Encontramos nosso manjar já no povoado do bebedouro, com a boa e velha coca gelada. Depois de uma pratrada, bateu a preguiça de fazer qualquer atividade vertical, condicionando a mudança de planos para a exploração da Toca da Laranjeira. 

Entramos na Toca da Laranjeira por volta das 15h, seguindo seus condutos sinuosos, inicialmente secos, até nos deparamos com a água, límpida, cor verde-água, por vezes com jangadas.  Percorremos os meandros por cerca de 40 minutos, quando atingimos um ponto crítico que testaria nossa coragem. Uma passagem por sifão, com diminutos espaços entre a agua e o teto. Exigia submersão parcial ou total, no breu. Fui o primeiro a testar a passagem. Em seguida André. Notando a preocupação dos demais, retornei pelo sifão, para dar suporte a passagem dos demais. Ciel e Val até que desconversavam:


-   É.. foi massa, viu?. Dá voltar daqui, que tá fácil.

-   Caminhamos foi muito. Ja deu pra ver que a caverna é grande. Que adrenalina hein? Deu pra cansar.
-    Pra mim já ta bom.
 
​ "Nem Tu, Nem Eu" pairou no ar. 


O primeiro trecho alagado da Toca das Laranjeiras.



Aquele impasse clássico onde ninguém quer ir, mas ninguém quer ser o primeiro a desistir. Jorgean, o Demolidor, quebrou a narrativa e mergulhou. Deu pressão nos caras. Veio a coragem. “ A palavra convence, mas o exemplo arrasta”.  Os dois passaram. Todos agora batizados na “Passagem dos Mergulhadores” do “Estreito de Berinberg”. 

Continuamos serpenteando os condutos, com água as vezes no joelho, as vezes no abdome. Mas, a caverna segue e caminhar na água triplica o gasto. Pouco mais de uma hora de caminhada, decidimos parar. Retornamos pelo mesmo caminho, passando pelo mesmo sifão, mas agora notando ao menos duas ramificações não identificadas na ida. Saímos da gruta já à noite, sentindo êxtase por algo novo e  radical,  sabendo que um dia retornaremos para concluir a missão de chegar no final.

 

                                                    Momento "nem tu nem eu"


Roupas trocadas e carro “arrumado”, nos despedimos de Val, Jorgean e Ciel, e pegamos a estrada de volta, em torno das 18:40. Na entrada de Juazeiro, já com o início das luzes da cidade, uma transição brusca entre a estrada de terra e o asfalto estourou o pneu do carro. Estávamos novamente no breu e com lanternas na mão. A situação, trocando o pneu no relento do acostamento, com o step meio vazio (porque ninguém lembra de calibrar o step) e sem qualquer dom para mecânico. Talvez por isso, o destino fez parar um mecânico que ia passando de moto. O apoio dele foi fundamental para a otimização da troca do pneu. 


O perrengue do pneu furado



De volta ao carro, cheguei a falar pra André que se houvesse uma justiça divina, a fim de compensar o contratempo, encontrariamos aberto uma borracheira ao lado de um espetinho no caminho de casa. Bingo! Estava lá na avenida do Antonio Cassimiro em Petrolina-PE, uma borracharia e os espetinhos na brasa logo no vizinho,, com arrocha tocando na talo. Mas, como o borracheiro achou o conserto do meu pneu muito complexo, decidimos encerrar o dia com cerveja gelada e fatiados em outro estabelecimento. 



 No fim, minha missão rendeu o esperado. Exploração de caverna é só uma desculpa esfarrapada pra sair de casa, se divertir, ser feliz e encontrar bons amigos. É importante construir memórias e ter alguma história para contar.

Dias depois, o incômodo que senti no quadrante inferior esquerdo do abdome foi piorando. Notei que havia uma lesão puntiforme com edema e hiperemia local. No segundo dor e prurido. No terceiro dia, a lesão se estendeu um pouco mais, piorou o edema e surgiram lesões satélites maculopapulares. Diagnóstico: picada de aranha marrom bem no bucho. 

Não apresentava manifestações sistêmicas relacionadas ao veneno. Não havia necrose, liquefação ou abscesso. Optei por não fazer o soro anti-loxoscélico disponível no Hospital de Traumas. O Ministério da Saúde recomenda a soroterapia em lesões graves com necrose local ou repercussões clínicas sistêmicas. Orienta tratamento com corticoide em casos leves. Fiz uso de prednisona 0,5mg/kg por 03 dia e antihistamínico. Horas logo após o início das medicações, já apresentei uma melhora. Hoje D7, apenas leve incômodo.  Importante: isso não é uma recomendação. Em caso de acidente com animal peçonhento, procure atendimento médico. 

Lesão de acidente com aranha marrom em um paciente atendido no trauma dias antes da expedição.

7dias após o acidente de aranha marrom na Toca do Caboclo. 


segunda-feira, 24 de março de 2025

Expedição março 2025 Parte 1: retorno à Toca do Vicente e novo paredão de calcário

 

Primeira semana de março de 2025. Encerrava-se minha jornada como residente de hematologia. Basta um tempo livre para o instinto explorador aflorar. E eu só pensava nos afloramentos de calcário que tinha visto meses antes. Mandei mensagem para André para verificar sua disponibilidade em prospectar. Logo entramos em um consenso: sexta pós-carnaval iríamos na Toca do Vicente e, em seguida, prospectar o paredão de calcário que vi em janeiro. No sábado, o caminho seria a região de Casas Velhas (distrito de Campo Formoso), onde fica situada a Lapa do Convento e também há um lajedo dentro das terras do nosso bom e velho Josan que precisava ser averiguado.

Partimos na manhã do dia 07/03/25, eu e Eugênia, agora casados, para mais uma aventura, guiando o Suzuki Jimny branco (Samurai Jack). Esquecemos Joana em Senhor do Bonfim por um erro de comunicação (que vacilo!). Encontramos com André em Campo Formoso. Como sempre, paramos no mercadinho em Poços para comprar o que comer, composto de barrinhas de cereais, fiambre, pão e suco em pó (almoço 5 estrelas).

 Eugênia disse na venda que o melhor pó de suco que ela já experimentou foi o da "baleinha" (figura 1), marca indisponível na venda e nunca vista antes. Depois dessa informação e inesperada, seguimos até a região da Gruta do Angico. Alguns quilômetros de estrada de chão, abrir e fechar de porteiras, paramos o carro na sombra ao lado da antiga casa de seu Idelso, morador antigo da região. Ele quem indicou as grutas da região para André (época em que completou os 33 anos, os quais perduram até hoje). Passamos por algumas plantações de sisal, cujas pontas são perversas. Passamos por alguns trechos de caatinga fechada, muitas vezes abertas na marra, já que o facão de André era cego (dos dois olhos). Alcançamos um pequeno leito de riacho seco, por onde caminhamos mais livremente. Felizmente esse seguia em direção a uma das entradas da Toca do Vicente.

Fig.1. Nostalgia de Eugênia
Fig 2. Rastejo externo em leito do rio seco para alcançar a entrada da Toca do Vicente.

Adentramos a gruta por um pequeno rastejo lateral, evitando a entrada principal por conta das abelhas. André já chegou na gruta com a bateria nas últimas. Seguiu ele para a coleta de ossos (uma mistura de ossos de veado, porco do mato e tamanduá bandeira). Talvez alguma onça fizesse a Toca do Vicente como sala de jantar. Explorei dois rastejos, que, para nossa surpresa, apresentavam desenvolvimento digno de nota. Ambos eram bem estreitos no primeiro terço, mas ganhavam expansão volumétrica em seguida e desenvolvimento horizontal de alguns metros (não mais que 100 metros). Em um deles, o final tinha grande quantidade de lama, o que proporcionou algumas quedas cenográficas quando tentei subir uma inclinação. A gruta possuía fauna bem ativa, com grilos, sapos, centopeias, morcegos, entre outros. No salão principal, com grande quantidade de guano, procuramos a entrada/saída principal. Consiste em uma fenda com sedimento e inclinação superior, na margem do salão. Foi nesse momento que Eugênia recebeu uma morcegada no rosto, um tapa. Não pela agressão morcegoide, mas sim pelo risco de ataque de abelhas, retornamos para a saída do rastejo e nos despedimos da Toca do Vicente.
Fig.3. Alguns registros da Toca do Vicente.

De volta ao carro, pegamos a estrada de chão retornando a fim de nos aproximar de um paredão de calcário que certa vez visualizei. Considerando a Toca do Angico como referência, a Toca do Vicente estaria alguns metros frontalmente, enquanto o paredão de calcário numa parte posterior ao Angico. Paramos o carro ao lado de uma cerca relativamente próxima a esse afloramento. Sobrevoei a área para certificar a localização do paredão de calcário e averiguar possíveis caminhos. Passamos a cerca e seguimos por diminutas trilhas feitas por criançada.

Fig.4. Imagens de drone do afloramento

Frequentemente, a trilha apagava e dava na caatinga fechada. Atravessamos o mato na cara e na coragem. Era cada lapada de urtiga, cansanção e favela. Espinhos agulhados para todo lado. Pense aí numa vegetação valente. É assim que o bioma lutou com Canudos na guerra. A caatinga por si só é uma fortaleza. Ainda fomos atacados por uma gangue de irapuás. Fizeram uma confusão com o cabelo de Eugênia. Após muita luta, chegamos próximo à parede. Um baita calcário, alto e prolongado horizontalmente. Com um corredor longo entre dois muros. Porém, o acesso às suas margens era difícil. A vegetação ficou ainda mais compacta. Era até visível algumas clareiras poucos metros à frente. Mas, percebendo o caminhar das horas (pouco mais de 17 horas), decidimos não prosseguir. Ainda restava o desafio de encontrar o caminho de volta com o sol se pondo. A vegetação ocultou os lugares por onde passamos. A luminosidade já baixa e o cansaço dificultaram ainda mais a orientação.

 

Figura 5. Avistamento do afloramento por baixo.

Felizmente, André tinha gravado a trilha no GPS do celular. Após alguns erros de trajeto, pegamos o caminho de volta. Os dois objetivos primários do dia foram alcançados. Já no carro, projetávamos uma futura expedição para concluir a prospecção desse calcário. Por hora, recarregar as energias, pois no dia seguinte teria mais (parte 2).

Figura 6. Aquela sensação de descobrir algo novo! 

Uma crônica de Leonardo Bamberg



terça-feira, 25 de outubro de 2022

Os segredos da Toca da Onça

 A Toca da Onça localizada no povoado de Caatinga do Moura, município de Jacobina, região norte da Bahia entrou para o mapa da ciência com as coletas e publicações realizadas pelo Professor Castor Cartelle no final da década de 70. Além de diversos espécimes da megafauna como: Preguiças e Tatus Gigantes, nesta caverna a essa mesma época foram coletados  restos de dois esqueletos humanos. Estudos desse material humano demonstram traços africano-australomelanésios com datações de 9 mil anos que demonstra a importância dessa caverna para a interessante questão do povoamento das Américas. Apesar de tamanha relevância até 2018 a caverna ainda carecia de informações geoespeleológicas que dão subsídios para a melhor utilização e valorização desse patrimônio natural. 

Vista área do afloramento da Toca das Onças. Uma árvore tombada cobre a dolina de formato circular que caracteriza a entrada da caverna.
Detalhe da entrada. 

No trabalho que realizamos em 2018 e publicado na revista Scientia plena (Artigo Original) nós caracterizamos a Toca das Onças do ponto de vista geomorfológico, realizamos uma topografia e um mapa da caverna foi publicado pela primeira vez e ficou disponível para que outros pesquisadores de diversas áreas como arqueologia e paleontologia possam usufrui desse material para complementar seus trabalhos. 



Aspectos da morfologia interna da caverna registrado sob a lente do Erickson Batista.



Já estávamos quase finalizando os trabalhos de topografia nessa expedição realizada no final de Janeiro de 2018 quando me deparei com um osso que se assemelhava a um osso humano, discutimos um pouco a respeito e decidimos fazer uma busca com maior atenção nesse pequeno trecho da caverna, não demorou e descobrimos diversos ossos relacionados, a dúvida se era ou não era de humanos permaneceu até que retirando um bloco e outro e limpando um pouco do sedimento revelou-se diante de nós uma mandíbula inequivocamente humana. Nossos corações dispararam e uma emoção tomou conta de todos os presentes, talvez estivéssemos diante de uma descoberta tão importante quanto foi a descoberta de Luzia (O fóssil humano mais antigo e que infelizmente foi queimado no incêndio que ocorreu no museu nacional do RJ).

Momento que encontramos a mandíbula humana durante os trabalhos espeleométricos de 2018.

O procedimento correto teria sido deixar cada vestígio desse em seu devido lugar e informar os pesquisadores da área de arqueologia sobre o ocorrido. No entanto, durante essa expedição participava um número muito grande de curiosos e ficamos receosos de deixar esse material para trás e que ele se perdesse antes da chegada dos pesquisadores, por essa razão após uma pequena discussão decidimos coletar e doar para a Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF) onde o material foi tombado e está sendo apropriadamente estudado.

Em 2021 fui convidado para participar de uma interessante investigação com um outro fóssil encontrado na Toca das Onças, tratava-se de algumas vertebras da preguiça gigante Eremotherium laurilardii, nestas vertebras o professor Fernando Barbosa identificou marcas relacionadas a um processo de cicatrização de uma ferida, o que nos fez sugerir que a preguiça caiu na caverna ainda viva, se machucou e ficou aprisionada na caverna até a sua morte algum tempo depois. Esse trabalho demonstrou pela primeira vez que a caverna funcionava como uma armadilha natural que os animais da megafauna caiam e não conseguiam sair, acumulando assim dezenas de esqueletos ao longo do tempo.  Esse trabalho foi publicado na influente Scientifc reports que é uma publicação do grupo Nature uma das mais relevantes revista científica do mundo. 

O título do trabalho publicado e fotos das vertebras encontradas na Toca das Onças.

Ilustração feita pela Paleoartista Júlia D' Oliveira representando a preguiça gigante tentando escapar sem sucesso da Toca das Onças durante a última era glacial.

Quais outros segredos ainda estão guardados na Toca das Onças à espera de novos olhares atentos?




Última expedição a Toca das Onças realizada em Outubro de 2021. Erickson, Juliano, André, Leo Bamberg, Eugênia (em pé) e Edemir (sentado).




quarta-feira, 3 de novembro de 2021

Spelaeogammarus! Quem são? Onde encontramos? e por que são importantes?

Quem são os Spelaeogammarus?

Popularmente são conhecidos como "Pitu" das cavernas. Trata-se de um minúsculo crustáceo de água doce (parente distante dos camarões) estão incluídos dentro da ordem dos Amphipoda ou anfípodes. As espécies de Amphipoda tem grande variação de tamanho, ocupam uma diversidade de habitats incluindo ambientes marinhos, de água doce e até ambientes terrestres úmidos. Dentro dos Amphipoda existe um grupo chamado de Gammaridea que são praticamente exclusivos de água doce e que o gênero mais conhecido é o Gammarus

Comparação mostrando as diferenças entre um anfípoda de água doce (que mais parece uma pulga aquática) com o pitu verdadeiro (um camarão de água doce).

O primeiro Gamaridea descrito em uma caverna brasileira ganhou o nome de Spelaeogammarus bahiensis; Spelaeo é o termo em latim para caverna.  Iva Nilce da Silva Brum descreveu esse novo animal em 1973, e no trabalho é informado que o material (2 machos e três fêmeas) foram coletados em uma caverna procedente do Distrito de Matamuté (Sic), Município de Curaçá na Bahia.  Na verdade no nome correto do distrito é Patamuté que é um termo da língua Cariri que significa "antas n'água. Não há registro de novas coletas do animal em Curaçá e fotos do espécime são desconhecidas, os trabalhos que citam o S. bahiensis repetem o erro de informar Matamuté ao invés de Patamuté. 

Desenho do artigo original que descreve o gênero. 

No final dos anos 80 e começo dos anos 90 pesquisadores do Grupo Bambuí de Pesquisas Espeleológicas identificaram e coletaram vários exemplares de Spelaeogammarus nas cavernas de Campo Formoso, principalmente Toca do Pitu, Lapa do Convento e Toca do Gonçalo; Inicialmente, acreditava-se que eram Spelaeogammarus bahiensis, porém na revisão feita por (KONEMANN & HOLSINGER, 2000) esses exemplares foram descritos como Speleogammarus trajanoae. A espécie é nomeada em homenagem a Professora da USP Eleonora Trajano por suas importantes contribuições para biologia subterrânea brasileira. 

No meu trabalho de graduação identificamos esse espécime (S. trajanoae) para uma nova caverna em Campo Formoso: a Toca da Tiquara (ARAÚJO & PEIXOTO, 2014); Posteriormente, nos trabalhos do Mestrado o identificamos em uma nova caverna em Várzea Nova: A Toca do Carlito (ARAÚJO et al., 2017).

Em C) coletando Amphipoda para o trabalho da graduação; D) tentativa de fotografar o minúsculo crustáceo em campo. E) Detalhe do S. trajanoae da Tiquara para a Dissertação do Mestrado. 


Registro extraordinário  de S. trajanoae feito pelo Erickson Batista na Toca do Carlito em Várzea Nova.

Do município de Iraquara foram coletados alguns exemplares nas cavernas Baixa do Salitre e Jaburu que foram identificados por (KONEMANN & HOLSINGER, 2000) como sendo da espécie Speleaogammarus spinilacertus. Mais tarde em 2004 Alexandre Camargo encontrou um exemplar de S. spinilacertus na Gruta da Torrinha (também em Iraquara). O exemplar de Iraquara é distinto das outras espécies do gênero por possuir alguns espinhos em um dos apêndices. Inclusive esse é o significado do nome spini= significa espinho e lacertus= braço superior.

Spelaeogammarus spinilacertus da Gruta da Torrinha. Foto: Alexandre Camargo (2004).


Da gruta do Padre, no município de Santana no oeste da Bahia foram coletados exemplares que (KONEMANN & HOLSINGER, 2000) identificaram como os de maior tamanho corporal comparado com as demais espécies (macho 13mm e fêmea 10 mm) , aparenta também maior transparência e é tecnicamente distinto das outras espécies por apresentar flagelos acessórios segmentados. Essa espécime foi batizada de Spelaeogammarus santanensis em referência a cidade de Santana.
Assim, como o S. bahiensis, não encontrei nenhuma imagem do S. santanensis.

No entanto, em 2014 André Senna (UFBA) junto com outros colaboradores descreveram uma nova espécie que está relacionada ao S. santanensis, essa espécie foi encontrada na caverna PEA- 445 na cidade de Santa Maria da Vitória e apresenta algumas características distintivas sendo uma das características que chamam a atenção o comprimento. Enquanto que até então S. santanensis ocupava o posto de maior Spelaeogammarus com 13mm esse novo espécime encontrado em Santa Maria da Vitória tem mais que 18mm de comprimento sendo considerado agora o maior Spelaeogammarus e por isso mesmo foi batizado com o nome de Spelaeogammarus titan!


S. titan. Foto de Rodrigo L. Ferreira uma dos autores do trabalho de descrição.



Rafaela Basto-Pereira & Rodrigo Lopes Ferreira (UFLA), descreveram recentemente mais 02 novas espécies: Spelaeogammarus sanctum para a conhecida e muito visitada caverna do Bom Jesus da Lapa e Spelaeogammarus uai coletado na Lapa d' água do Zezé em Itacarambi- MG. Sendo esse último o primeiro Spelaeogammarus registrado fora do Estado da Bahia; Embora a caverna faça parte da mesma unidade geológica (Grupo Bambuí) em que foram descritas as espécies S.santanensis, S. titan e S. sanctum.





Onde estão os Spelaeogammarus?

Aqui está uma excelente oportunidade para falar sobre nossos aquíferos cársticos. A interação entre as águas superficiais e subterrâneas em locais que tem rochas carbonáticas, resulta em um complexo e imprevisível aquífero denominado aquífero cárstico. Esses aquíferos são pouco estudados do ponto de vista biológico e costumam apresentar um grande número de espécies únicas e exclusivas. 
No Estado da Bahia temos aquíferos cársticos relacionados a bacia do Rio São Francisco. No oeste temos um aquífero nos carbonatos do Grupo Bambuí na bacia do Urucuia; Na região central, temos o aquífero nos carbonatos do Grupo Una subdividido nas bacia Una- Utinga e bacia de Irecê na região da Chapada Diamantina e também nos carbonatos do Grupo Una temos a bacia do Salitre na região norte do Estado; Os carbonatos ocorrem ainda em um pequena faixa na Sub-bacia de Curaçá-Canudos. Ver mapa a seguir.


No aquífero cárstico da bacia do Urucuia foram encontrados 4 espécies: Spelaeogammarus uai; S. sanctum, S. titan e S. santanensis. Da bacia de Irecê foi descrito o S. spinilacertus; Na bacia do Salitre o S. trajanoae; e na bacia de Curacá-Canudos o Spelaeogammarus bahiensis. Uma olhada rápida no mapa e já dá para fazer uma previsão científica. Uma espécie de Spelaeogammarus está aguardando ser descoberta e descrita na bacia de Una-Utinga!

Além disso, a própria bacia de Irecê é subestimada com relação a ocorrência do anfípode. Na bacia do Salitre ocorre um número maior de expedições  espeleo-científicas e o crustáceo já foi registrado de um extremo a outro da bacia. Enquanto que na parte norte da bacia de Irecê, na sub-bacia do  rio Verde-Jacaré há uma lacuna de conhecimento espeleológico.

Nessa imagem pode-se observar a ocorrência de Spelaeogammarus por bacia no Estado da Bahia. 

Podemos pensar em duas hipóteses para explicar a distribuição do Spelaeogammarus. Uma primeira possibilidade seria que o ancestral do Spelaeogammarus (talvez, um parente que vivesse nas águas superficiais) invadiu um ponto específico do aquífero e a partir daí se espalhou por migração para todos os pontos onde hoje eles são encontrados. Transpondo barreiras entre uma unidade geológica e outra e pouco a pouco separando as populações e promovendo especiação. 
" Um exemplo hipotético: O ancestral invadiu o ambiente subterrâneo onde hoje é a bacia do Urucuia na região oeste. E formou a espécie 01 uma parte da população da espécie 01 conseguiu transpor a barreira e migrou para o aquífero na parte central do Estado e essa população isolada formou a espécie 02. O processo se repete formando a espécie 03 a partir de uma parte da população da espécie 02 e assim sucessivamente." 

A hipótese alternativa a da migração é a chamada hipótese do efeito vicariante. Nessa proposta as bacias que hoje estão separadas já foi no passado uma única unidade geológica e nessa unidade a espécime ancestral do Spelaeogammarus era abundante e ocupava o aquífero como todo. Com o tempo (intemperismo e erosão), essa unidade se fragmentou em várias "ilhas" que hoje são as bacias, separando a população que antes era contínua em várias subpopulações isoladas, cada uma dessas subpopulações acumulou as diferenças que as tornam espécies diferentes. 

Qual das duas hipóteses é mais provável?
 Usar esse espécime para ajudar a explicar esse importante tipo de questão evolutiva já responde a pergunta do título da postagem

Por que Spelaeogammarus importa?

As espécimes encontradas em aquíferos cársticos são representantes de espécies muito antigas que foram abundantes no passado e hoje são restritas a esses ambientes e por isso são chamadas espécies relictuais. 
No trabalho que desenvolvemos durante o Mestrado tentamos dar uma olhada nessa questão da distribuição, utilizando uma das bacias como modelo. Escolhemos a bacia do rio Salitre e observamos a ocorrência das populações de Spelaeogammarus trajanoae para pensar se migração ou efeito vicariante explicaria melhor essas populações estarem separadas dentro da bacia. 
No mapa a seguir observa-se as cavernas que permite acesso ao aquífero e tentamos registar os Amphipodas. 


O que percebemos preliminarmente é que Spelaeogammarus parece ter baixo poder de dispersão. Mesmo em cavernas que o lençol freático aflora em pontos diferentes os espécimes foram observados sempre nos mesmos pontos. Outro ponto que percebemos é que locais em que eles já foram registrados em trabalhos anteriores com por exemplo na Toca do Gonçalo em Campo Formoso, não foram mais observados devido ao rebaixamento do lençol freático. 

Sugerimos nesse trabalho que Speleogammarus já foi abundante em todo o aquífero da bacia do Rio Salitre, mas que mudanças paleoclimáticas restringiu esses anfipodes em refúgios de hábitat subterrâneos em longos períodos de seca o que poderia ser uma razão para não encontrar populações em pontos com conexões hidráulicas. É claro que outras explicações são plausíveis e apenas começamos a fazer as perguntas. 
No entanto a grande preocupação é: Vamos ter tempo para responder? Isso por que a má utilização da água subterrânea para agricultura extensiva junto com a contaminação do lençol freático pelos mais diversos tipos de poluentes aliados a crise climática trazendo anos com cada vez menos chuvas pode levar a extinção dessas maravilhosas criaturas antes mesmo que eles possam nos ajudar a responder simultaneamente como evoluiu a espécie e o relevo.

Referencias 

ARAÚJO, A.V. & PEIXOTO, R.S. The Impact of Geomorphology and Human Disturbances on the Faunal Distribution in Tiquara and Angico Caves of Campo Formoso, Bahia, Brazil. Ambient Science, 2014: Vol. 01(1).

ARAÚJO, A.V.; Leal, L.R.B.; Gomes, D.F. Anfípode subterrâneo do gênero Spelaeogammarus como um indicador de conectividade em um aquífero cárstico da bacia do rio Salitre, centro norte do Estado da Bahia. In Proceedings of the Anais do XIX Congresso Brasileiro de Aguas Subterrâneas, Campinas, Brazil, 20–23 September 2016; Associação Brasileira de Águas Subterrâneas: São Paulo, Brazil, 2016

ARAÚJO, A.V; BASTOS-LEAL, L.R.; Gomes, D.F. Novos dados preliminares sobre o padrão biogeográfico de Spelaeogammarus trajanoae Koenemann & Holsinger, 2000(Amphipoda: Bogidiellidae) no aquífero cárstico da bacia do rio Salitre, centro norte do Estado da Bahia. Revista Brasileira de Espeleologia- RBesp. V. 2, nº8 .2017.

BASTOS-PEREIRA, R. & FERREIRA R.L. A new species of Spelaeogammarus (Amphipoda: Bogidielloidea: Artesiidae) with an identification key for the genus. Zootaxa 4021 (3): 418–432. 2015. http://dx.doi.org/10.11646/zootaxa.4021.3.2.

CAMARGO, A. Gruta da Torrinha: Uma nova localidade do anfípode troglomórfico, Spelaeogammarus spinilacertus (Bogidiellidae), de cavernas de Iraquara, Bahia. Revista O Carste, Volume 16 nº1. 2004.

KOENEMANN, S. & HOLSINGERr, J.R. Revision of the subterranean amphipod genus Spelaeogammarus (Bogidiellidae) from Brazil, including descriptions of three new species and considerations of their phylogeny and biogeography. Proceedings of the Biological Society of Washington, 113 (1), 104–123. 2000.

SENNA, A.R., ANDRADE, L.F., CASTELO-BRANCO, L.P. & FERREIRA, R.L. Spelaeogammarus titan, a new troglobitic amphipod from Brazil (Amphipoda: Bogidielloidea: Artesiidae). Zootaxa, 3887 (1), 55–67.2014. http://dx.doi.org/10.11646/zootaxa.3887.1.3.


 

sábado, 30 de outubro de 2021

TOCA DO NONATO: Uma cavernada aleatória.

 

Enquanto desempoeirava capacetes e lanternas me dei conta que precisava limpar a pior espécie de poeira que vem se acumulando em tempos de pandemia, aquela que pano úmido nenhum pode afastar:  A das histórias não contadas! Afinal de nada vale os dias especiais se não forem compartilhados.

Esse é o relato de uma expedição que aconteceu em abril de 2019, e que rendeu belas fotografias ( o que por si só, já justifica a postagem).


Registro de Erickson Batista na Toca do Nonato. 04/19




 Escrevendo agora em 2021 posso ser traído pela memória em alguns detalhes.  O que lembro com razoável certeza é que essa expedição não estava no nosso calendário oficial de expedições. O que aconteceu foi que próximo a semana da expedição mensal, Ney enviou no grupo de whats app uma foto e um áudio de algumas pessoas entrando em uma caverna que diziam ser inexplorada. As fotos mostravam um bom potencial e a caverna era na cidade de Cafarnaum na Bahia, essa cidade é próxima a Iraquara que é amplamente conhecida pela quantidade de cavernas e dolinas! Valeria a pena mudar o planejamento e ir conferir. 

O Ney que foi o cara que deu a ideia, nos avisou que não poderia viajar conosco naquele final de semana mas, deu a dica de um contato que encontraríamos na cidade Morro do Chapéu, o tal contato conhecia a caverna e poderia nos levar lá. E assim, pegamos a estrada saindo de Sr.do Bonfim:  Alexandre, Thiago Mattos e eu. Paramos em Várzea Nova para encontrarmos nosso principal fotografo o Erickson Batista.

Equipe completa, chegamos no Morro do Chapéu um pouco depois de meio dia, encontramos o contato que o Ney tinha informado e ficamos sabendo que ele não poderia ir conosco. O que ele poderia fazer era dar umas dicas de como chegar no povoado em que fica a caverna, e o contato do seu Nonato que poderia nos ajudar. 
Antes de nos desejar boa viagem nosso anfitrião do Morro ainda nos mostrou uns vídeos que fez na caverna o que nos deu um ânimo maior para a chegar logo e cavernar antes de anoitecer.
Chegamos ao povoado, e encontramos Seu Nonato!  Um senhor muito simpático, que nos contou vários causos e se prontificou a mostrar a entrada da caverna e autorizou que acampássemos no seu quintal, pós cavernada.

Tudo arrumado chegou a hora de cavernar. De acordo com seu Nonato a caverna fica pouco mais de 300m a frente de sua propriedade, mas, precisaríamos passar pela propriedade de terceiros e, portanto, seria necessário uma ou outra conversa antes de chegar no afloramento. Feito isso, já era quase 16h quando chegamos ao ponto onde estaria a caverna. Seu Nonato teve um pouco de dificuldade de encontrar o local exato da entrada e assim que encontrou nos informou que não poderia entrar conosco devido o adiantar da hora.  Perguntei qual que era o nome da caverna e ele respondeu que não tinha nome, era só "Toca". Normalmente, quando isso ocorre, costuma-se batizar a caverna com o nome da fazenda onde está entrada. Mas, pela simpatia, pelos causos e hospitalidade de seu Nonato, resolvemos que seria justo cadastrar a cavidade com o seu nome.

A caverna tem uma entrada pequena seguida por um conduto estreito com forte cheiro de guano e de animais em decomposição. Passando esse conduto abre um pequeno salão terminando em um teto baixo logo a frente. Será que já acaba aqui? Mas tá diferente do que nos mostraram nos vídeos. "Deve ter alguma outra passagem que passou desapercebido". 

Não demorou para encontrarmos uma passagem lateral mas, que para nossa infelicidade  terminava em um salão obstruído por blocos; Não é possível que viemos de tão longe pra ver tão pouco!



O salão obstruído e a cara de decepção da equipe. Foto: Erickson Batista.


Já estávamos de saída da caverna, mas naquele ritmo sem pressa e sem preocupações! Uma parada para beber uma água e fazer um lanche. Aquele bom bate papo, despreocupado e antes que a maioria terminasse seu lanche eu indaguei: “ Desde quando deixamos um teto baixo para trás? 

- " Vamos rastejar aqui. Obtive a seguinte resposta de Thiago:

- “Vai na frente. Se prosseguir, a gente te segue”. 

- Ok!

Rastejei e percebi que continuava. Avisei a turma! Aquela altura ainda não conseguia saber se prosseguia um pouco mais ou se iríamos nos deparar novamente com um salão obstruído, mas, pelo menos era teto alto; Usando aquela estratégia psicológica de dividir as preocupações por etapas, insisti para que todos fizessem o rastejo e em seguida, pedi para que Erickson fizesse um registro para nossos arquivos, então depois iriamos conferir o final do conduto.  

O conduto pós rastejo.

A medida que progredíamos a caverna nos surpreendeu com condutos e salões completamente diferentes do que tínhamos antes do rastejo, dentre as mudanças destaca-se a drástica mudança progressiva da umidade, culminando em condutos com água e lama. 


Um dos sinais da mudança de umidade foi esse raro registro de uma Gminophiona em caverna. Esse é um anfíbio conhecido como "cobra-cega" e encontrado apenas em ambientes úmidos.



 Nesse ponto a caverna alterna curiosos condutos de meia altura com morfologia retangular e  grandes salões de teto alto.  SIMPLESMENTE NÃO TEM LIMITE A IMAGINAÇÃO DA ÁGUA QUE ESCULPE CAVERNA!



Um dos belos salões encontrados. O desafio aqui é encontrar onde estão todos os 4 integrantes da expedição. Alguns estão bem camuflados. 

 

Encontramos duas ramificações laterais antes de chegar ao final da caverna. Exploramos uma das ramificações para perceber que ela dá uma volta e se conecta ao conduto principal de onde partimos.   A exploração dessa ramificação rendeu um causo. 

Enquanto estávamos no salão principal, pousando para fotos, foi o Alexandre quem primeiro entrou na ramificação avisando que iria ver até onde ela prosseguia. Depois de uns 10min, resolvemos seguir os passos de Alexandre pela ramificação lateral. E aqui era literalmente seguir os passos. Uma vez que, nesse local o piso estava forrado com uma lama viscosa e a nossa bota inevitavelmente afundava. Avançamos seguindo os rastros deixado por Alexandre até que os rastros desapareceram do nada!!!!

O conduto fechava a nossa frente, não tinha lugar algum para Alexandre está escondido tentando nos pregar alguma peça ou algo do tipo e ficamos sem ter explicação para o seu desaparecimento.

Após alguns minutos gritando o  nome de Alexandre sem nenhum retorno, finalmente ouvimos um barulho vindo de longe.


A explicação: Próximo ao local onde o conduto fecha tem um nível superior que não tínhamos enxergado, aqui o sedimento é mais fino e seco, Alexandre subiu sem deixar marcas, esse novo local desemboca em grandes salões e depois volta para os condutos com lama de onde partimos. 

Saímos da caverna por volta de 20h e ficamos com uma boa sensação de dever cumprido. No dia seguinte voltando para casa, ainda tivemos a oportunidade de contemplar o sítio da Cachoeira do Ferro Doido, um conhecido ponto turístico da cidade de Morro do Chapéu.

 

Da Esquerda para direita:Erickson Batista; André Vieira; Thiago Mattos e Alexandre Santos.


Chegando em casa, mostrando as fotos e contando os relatos para Ney, e a seu contato no Morro do Chapéu descobrimos que exploramos a caverna “errada” ou os condutos errados da caverna certa? Segundo eles (e os registros fotográficos confirmam) não fomos nos locais onde eles foram.  Questão que só poderá ser respondida no nosso retorno a Cafarnaum e revisitar a  misteriosa Toca do Nonato.

PARA QUE SERVE UMA CAVERNADA? SIMPLESMENTE PARA VOLTAR AO PONTO DE PARTIDA!