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quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Depois do Medo, o Mundo

 Depois do Medo, o Mundo 

Por Bartolomeu Barros Jr.


No início, não havia gruta. Havia apenas chão.

Meus olhos teimavam em se fixar no passo seguinte: nas estalagmites que impediam o livre caminhar, na fenda que poderia engolir o pé, na pedra solta que denunciava um abismo, na areia movediça que sugava as pernas como se a terra tivesse fome. O capacete iluminava o que estava imediatamente abaixo, como se a caverna se recusasse a ser vista por inteiro. Eu não olhava para dentro. Eu olhava para onde pisava.

André encostou a mão espalmada na parede e esperou que eu fizesse o mesmo. A rocha era fria, áspera, com um brilho fosco de coisa antiga. Ele disse:

— Dolomito. Uns seiscentos milhões de anos.

Deixei a mão ali mais tempo do que precisava. Seiscentos milhões de anos. Quando aquela pedra se formou, não havia na Terra nenhuma criatura com olhos. Nada que pudesse ver. E eu estava ali, com os meus, teimando em olhar apenas para os pés.

No início, não havia gruta. Havia apenas chão.

A Gruta da Barriguda, em Campo Formoso, na Bahia, tem mais de trinta quilômetros de galerias mapeadas. É a segunda maior caverna do Brasil. A poucas centenas de metros dali, atrás de uma parede que ninguém ainda conseguiu atravessar, corre a Toca da Boa Vista, com seus cento e quatorze quilômetros, a maior de todas. O André dizia que as duas já foram um único sistema, partido emalgum momento do tempo profundo. Os condutos mais próximos estão a menos de setecentos metros um do outro. Um dia alguém vai achar a passagem.

Nós faríamos pouco mais de dois quilômetros: um para dentro, um para voltar, e os metros que o labirinto cobra por fora. Mas que quilômetros.

Éramos quatro. André e Jéssica, espeleólogos, liam a rocha como quem lê uma página conhecida. Iori, o bolsista, era o mais novo, e por isso o mais leve. E eu, que ia atrás, aprendendo.


Expedição teste do projeto monitoramento fisiológico em ambiente subterrâneo. Bartolomeu Barros, Iori Sueda, Jessica Carolyne Silva, e André Vieira Araújo.


André chamava os obstáculos por nomes que já eram histórias: o salão do Urso, o estreito do Lobo Deitado, a descida Liquidificador, a breve passagem Janelinha, e a sala da Vitória sobre a Morte. E, mais adiante, uma cúpula de quase oito metros, ainda sem nome definitivo, que os espeleólogos chamavam provisoriamente de Queda da Jéssica. Numa expedição anterior, ali, Jéssica caíra sobre as pedras e, milagrosamente, saíra com apenas uma torção no pé e as mãos queimadas. Não imagino como saiu da gruta.

O nome era um aviso. Também era uma homenagem.

E ela ia na nossa frente, iluminando a passagem com a naturalidade de quem volta para casa.

Escalávamos, rastejávamos, equilibrávamo-nos sobre abismos que a luz do capacete não conseguia vencer. Nada ali era impossível, mas nada era gentil. Os joelhos negociavam cada apoio. Os ombros pagavam o pedágio de cada fenda. Os músculos respondiam, sim, mas com um segundo de atraso, esse segundo que os anos vão acrescentando sem avisar. O corpo se tornava um órgão de percepção mais confiável que os olhos. As mãos decoravam cada apoio. Os pés reconheciam a textura da rocha. A respiração se ajustava ao ritmo da passagem estreita.

E foi só quando o corpo aprendeu a confiar, quando a carne se fez bússola, que pude, enfim, levantar a cabeça.

Aí sim. A gruta apareceu. E era imensa.

Estalactites pendiam do teto como os canos de um órgão de catedral: mudos, petrificados, esperando o sopro que nunca viria. Estendi a mão para uma delas,ao alcance, sem pensar. Jéssica apenas me olhou. Não precisou dizer nada, e eu já sabia o que ela diria: que o óleo da pele fecha o poro da pedra, e que ela para de crescer ali.

Recolhi a mão. Aquele palmo de calcita levara dez mil anos para chegar até onde estava, e eu podia interrompê-lo em um segundo distraído. Nunca uma proporção me pareceu tão injusta.

Momentos de reflexão pós passagem do lobo deitado.

Os salões se sucediam como templos subterrâneos, cada um com sua própria acústica. Alguns devolviam o som das nossas vozes em eco distorcido. Outros o engoliam em silêncio absoluto, quando, por um momento, os três sumiram explorando uma câmara em busca de fósseis de roedores. A gruta era uma catedral sem músico. E nós, seus fiéis acidentais.

Registro fossil, provavelmente um roedor ancestral aprisionado na rocha calcária. 


O labirinto desembocava em rotas conhecidas e outras nem tanto. A cada gole de água, um gole de reposição de sais permitia os próximos passos. Dividíamos o espaço com uma fauna breve e específica: caranguejeiras imóveis nas paredes, aranhas-marrons que não se importavam conosco, grilos e traças que pareciam ter nascido ali e nunca ter visto a luz do dia.

André apontou uma traça pálida, quase transparente, do tamanho de uma unha, e corrigiu o meu "pareciam":

— Essa não vê mesmo. Não tem olho, não tem pigmento, e não existe em nenhum outro lugar do mundo.

Levei um tempo para entender o tamanho da frase. O mundo inteiro daquele bicho eram aquelas galerias. Tudo o que a espécie dele conhece de universo cabia no escuro em que estávamos apertados, de passagem, com garrafa d'água e capacete. Nós tínhamos vindo passar quatro horas dentro da casa dela.

Houve um momento, e não sei precisar quando, em que o silêncio deixou de ser ausência e passou a ser presença. Os morcegos voavam sobre nossas cabeças em correntes invisíveis, e o som orgânico de suas asas era a única respiração do lugar.

Lembrei da biologia do meu currículo e pensei, quieto, que ali embaixo não havia planta. Não havia sol, não havia fotossíntese, não havia nada que fabricasse comida. Tudo o que vive ali vive do que o morcego come lá em cima e devolve aqui embaixo.

Era isso. A caverna não produzia nada. Recebia. Cada animal perdido, cada grilo, cada traça, cada aranha que ignorava a nossa passagem estava, no fim das contas, comendo caatinga. Uma caatinga digerida, transportada de noite por asas, entregue no escuro. O chão dependia do céu. Eu ainda não sabia o quanto aquela frase ia me custar, algumas horas depois.

A imersão era completa. Nem os pensamentos conseguiam sair dali. A caverna nos havia engolido inteiros. Foi então que André cochichou que, ao atravessar a Janelinha, a gruta estava me dando à luz. Eu sorri.



Eu vinha imaginando, o tempo todo, que caminhávamos sobre o leito de um rio antigo. Era a explicação confortável, aquela que a gente aprende na escola: a água desce, escorre, cava, e um dia vai embora deixando o vazio. Foi André quem desmontou isso sem nenhuma cerimônia, enquanto repúnhamos os sais para os próximos passos.
— Nenhum rio cavou isso aqui. A água não desceu. Ela subiu.
Ele explicou devagar, porque viu na minha cara que eu precisava de devagar. O dolomito daquela região carrega pirita, sulfeto de ferro, o que os antigos chamavam de ouro dos tolos. Águas profundas subiram pelas fraturas, encontraram o sulfeto, e do encontro nasceu ácido sulfúrico dentro da própria pedra. A caverna não foi escavada de fora para dentro. Foi corroída de dentro para fora, de baixo para cima, pela reação da rocha consigo mesma. É a maior caverna do mundo formada desse jeito.
Pensei, de passagem, então ela se comeu por dentro. E pensei, logo em seguida: aquilo daria um belo tema de TCC para a Jéssica.

Passei a mão nas crostas esbranquiçadas da parede, que eu tinha tomado por poeira. Gesso. O resto da reação, a cicatriz mineral de um ácido que trabalhou naquele escuro por milhões de anos e foi embora sem deixar recado. Eu estava dentro de uma ferida que sarou tão devagar que virou catedral.
Mas havia água na história, sim. Não a que abriu, e sim a que veio depois, gota a gota, pelo teto, construindo pacientemente o que o ácido havia desmanchado. Cada estalactite é uma gota que levou séculos para virar pedra. Cada salão guarda uma memória líquida.
Só que essa memória tem lacunas, e são as lacunas que dão a notícia. Mediram os espeleotemas dali, contou Jéssica, e descobriram que eles só cresceram durante oito por cento dos últimos duzentos e dez mil anos. Noventa e dois por cento do tempo, nada. Pedra parada, seca, esperando. A caatinga quase sempre foi caatinga.
E as raras vezes em que choveu de verdade, há quinze mil, trinta e nove mil, quarenta e oito mil anos, coincidem com uma pontualidade que dá arrepio com os períodos em que geleiras desabavam no Atlântico Norte e o mar esfriava do outro lado do planeta. Icebergs se soltando perto da Groenlândia mudavam o caminho da chuva no sertão da Bahia.

Fiquei um tempo sem conseguir falar. Aquela estalactite acima da minha cabeça tinha sido escrita por um inverno ocorrido a oito mil quilômetros dali. Não existe "aqui". Nunca existiu.
A caatinga, lá em cima, era seca e aparentemente pobre. Mas ali embaixo, a água havia consagrado a vida por milênios, esculpindo labirintos, abrindo abismos, criando catedrais. O semiárido não era pobre. Era apenas discreto. Guardava seus tesouros, também, no subsolo, como quem não precisa exibir a riqueza.
Em algum ponto do caminho, André iluminou o chão e comentou, quase de passagem, que de galerias como aquelas os pesquisadores já retiraram mais de cinquenta mil ossos. Preguiças gigantes. Um urso que o Brasil não tem mais. Cães selvagens extintos. E dois macacos enormes, de esqueleto quase inteiro, que não se conhecem de nenhum outro lugar do mundo. Há uns vinte mil anos, uma enchente empurrou bichos mortos para dentro, e a caverna, que não tem sol nem vento nem apetite, simplesmente guardou.
Pensei de novo nos nomes dos obstáculos. O Urso. A Vitória sobre a Morte. Os espeleólogos batizam com humor aquilo que já entenderam com seriedade. Uma gruta é um lugar que conserva o que entra. Todos aqueles bichos entraram e não saíram. A diferença entre eles e nós era um capacete, um mapa e a decisão de voltar.
Lá fora, a noite se espalhava pela planície baiana. Mas fingíamos que não sabíamos. Não desconfiávamos. Porque a gruta não nos devolvia.
A volta foi pelos mesmos nomes, na ordem inversa. A Queda de Jéssica, a Vitória sobre a Morte. A Janelinha. O Liquidificador. O Lobo Deitado. O Urso. O corpo já sabia o caminho, mas já não tinha com que pagar por ele. Cada apoio vinha da memória, não da força. E era estranho: eu tinha menos medo e mais tremor, como se as duas coisas tivessem trocado de lugar.
Quando saí do último, sentei na pedra recuperando o fôlego, as mãos ainda fechadas em garra. Jéssica esperou e disse, sem nenhuma solenidade, como quem comenta o tempo:
— Depois do medo vem o mundo.
Guardei a frase sem entender direito. Achei que fosse sobre a passagem. Era sobre tudo.


Quatro horas depois, começamos a sentir a brisa antes de vê-la.
Ela vinha de longe, tímida, como quem pede licença para entrar. E com ela, o ar mudava de textura. O cheiro úmido e mineral da caverna cedia espaço a algo mais seco, mais vegetal. Os filhotes de urubu, próximos à boca de saída, nos alertaram com seu grasnado. Era um aviso gentil, como quem diz: estão quase chegando.

A saída da gruta é um portal. Não há transição gradual. É a rocha que se abre, e de repente você está fora. O céu que nos esperava era um escândalo. Já estávamos deitados na boca da caverna.

A Via Láctea estava tão baixa que dava a impressão de tocá-la com a mão. Os meteoros rasgavam a noite como falhas em um disco, riscos de luz que surgiam do nada e desapareciam diante dos olhos, tão rápidos quanto a certeza de que estávamos em casa.
Os quatro. Exaustos, encharcados de suor e sal, os músculos tremendo como cordas prestes a se romper, as articulações cobrando os juros de tudo o que eu havia pedido a elas. Ninguém falava. Não havia palavras para o que tínhamos vivido.
Foi então, e guardei isso como um segredo que a noite me confiou, que a Sinfonia n.º 3 de Henryk Górecki começou a tocar dentro de mim. Não a sinfonia inteira. Apenas o primeiro movimento. Aquele lamento lento, arrastado, que parece vir de um lugar onde a dor já não tem nome. A música que fala de perdas, de guerras, de mães que enterram filhos. A música que não consola. Apenas testemunha.

E ali, deitado na caatinga, com os meteoros rasgando o céu como feridas abertas, entendi por que aquela música me encontrou. Não porque a caverna fosse triste. Não porque a expedição tivesse sido dolorosa. Mas porque o contraste era insuportável e belo.
Como pode um lugar tão seco, a caatinga, o semiárido, a terra que parece negar a vida, esconder debaixo de si um mundo de água petrificada, de rios que nunca existiram, de estalactites que levaram dez mil anos para crescer um palmo? Como pode o mesmo chão que sustenta mandacarus e xique-xiques guardar em suas entranhas catedrais de rocha, labirintos de quilômetros, silêncios que pesam como séculos?
Górecki sabia disso. Sua música não fala de paisagens. Fala de abismos. Da distância entre o que se vê e o que se esconde. Da dor que não se mostra, mas que esculpe o corpo por dentro, como o ácido esculpe a rocha.
A caatinga não é pobre. É apenas discreta. Guarda sua riqueza em camadas, assim como a sinfonia de Górecki guarda sua beleza em notas que parecem não ir a lugar nenhum, mas que, no fim, revelam que estiveram lá o tempo todo.
A boca da caverna era um corte escuro na terra, um respiradouro do planeta. Quem passasse por ali durante o dia não desconfiaria que ali se escondia um mundo. Quem passasse durante a noite, como nós, talvez sentisse apenas um sopro quente e úmido saindo do chão.
Mas nós sabíamos.
Sabíamos das estalactites, dos abismos, da queda de Jéssica, dos morcegos, do silêncio. Sabíamos que o corpo humano pode se fazer bússola. Que a escuridão não é vazia, é cheia de presenças. Que o medo e o espanto são a mesma coisa, vistos de ângulos diferentes.
E sabíamos de uma coisa que não me sai da cabeça desde então. Todos os bichos que entraram naquela gruta entraram por engano, por fome ou por queda. A água empurrou, o chão cedeu, o instinto errou. Só uma espécie desce ali por vontade própria, com luz, com nome para cada obstáculo, sem precisar de absolutamente nada do que existe lá embaixo. Descemos por curiosidade. É a coisa mais inútil e a mais bonita que fazemos.

E sabíamos, agora, que a Via Láctea é mais bonita quando vista por olhos que ainda estão se ajustando à luz. E que a caatinga, tão aparentemente nua, é uma das paisagens mais generosas do mundo. Porque ela não mostra tudo de uma vez. Ela exige que você desça. Que você se curve. Que você rasteje. E só então, no fundo, ela revela o que guarda.
Levantamo-nos devagar. As pernas doíam. Os ombros doíam. Mas havia um alívio que não era físico.
Caminhamos em silêncio de volta ao carro. A noite nos envolvia como uma concha. Os meteoros continuavam a cair, indiferentes, como se a Terra fosse apenas mais um planeta qualquer. O que, de certa forma, é verdade.
No carro, alguém disse baixinho, e ainda hoje não sei se foi Iori ou o cansaço falando por todos nós:
— Parecia outro mundo.
E eu pensei: não parecia. Era. Nós é que éramos os astronautas de uma viagem de dois quilômetros. E tínhamos voltado.
Abrimos as portas. O ar da noite entrou como uma brisa final. E lá fora, a caatinga seguia sua vida noturna de insetos e estrelas. Silenciosa. Imensa. Perfeita.
Como o primeiro movimento de Górecki.
Que não precisa de fim, porque sua beleza está justamente em não se resolver.

Campo Formoso, Bahia. Agosto de 2026.

segunda-feira, 1 de junho de 2026

EXPEDIÇÃO ABREUS - NEM TU NEM EU por Leonardo Bamberg

 Diante de um raro fim de semana sem compromissos, lancei no grupo a ideia despretensiosa de mais uma expedição. Após o tradicional "vou, não vou" dos indecisos, a missão foi selada: explorar as imediações de Abreus, distrito de Campo Formoso (BA), convite prévio do amigo Val do Léle. Saímos de Petrolina-PE eu (Bamberg) e André, ainda no auge dos seus 33 anos. Partimos em busca de um pouco de caos organizado. No som, Los Hermanos embalava conversas sobre a vida e a paternidade futura. No meio do caminho, veio a lembrança do tanque quase vazio. Realizamos uma parada rápida para abastecer e garantir o estoque de água e petiscos. Um hora e meia de asfalto e terra, completamos o time:  escalação com Jorgean (o "Demolidor"), Val do Lelé (o homem da mídia) e Ciel Brejão (o blogueirinho das aventuras). A velha guarda já estava ali no povoado coletando informações com moradores locais, um deles mudo. Jorginho dialogava com ele através de grunhidos e gesticulações, optando pra mim e fazendo gestos afeminados com a mão. Eu tentava sem sucesso desfazer o equívoco. 


Os integrantes da expedição pré cavernada. Leonardo Bamberg e André Vieira no carro, Jorgean Silva, Ciel Brejão e Valber Freitas sentados na calçada.

Depois do momento da quinta série, já com a formação do quinteto, partimos para a Toca do Caboclo, próximo ao povoado.
Estacionado perto do lajedo, conjecturei que a gruta seria pequena e que seria um dia quente. Com esse meu cálculo, optei por não colocar o macacão de nylon. 

Apostei na camisa de manga longa e calça ripstop, sem saber o preço da escolha.

Nos deparamos com o  lajedo cárstico (lapia). Um campo minado, com espinhos de coroa de frade espalhados de forma camuflada do calcário cinza e afiado. A paisagem tem um tom extraterrestre, mistura de caatinga com solo lunar. Alguns metros de caminhada, chegamos na primeira toca. Esta chamava atenção não pelo desenvolvimento, mas pela presença de pinturas rupestres. A maior delas representava um animal de cauda longa e espichada na ponta, remetendo-se a um tatu pré-histórico extinto, vigiando a entrada do tempo. 


Visão do carste da região de Abreus.


Entrada Toca dos Caboclos I


Andamos poucos metros ao lado para chegar na Toca do Cabloco.  A entrada horizontal, com altura próxima aos 5 metros.
Uma passagem apertada ao fundo dava acesso ao seguimento da caverna, que apresenta dois pisos. A parte superior tem um desenvolvimento horizontal de alguns metros frontalmente. Já a parte inferior, acessada por um pequeno abismo de 4 metros, é responsável pelo maior desenvolvimento da caverna e abriga a maior parte das descobertas.


Entrada Toca dos Caboclos II

Acesso ao nível inferior da Toca dos Caboclos II



Logo ao descer, notamos uma caverna ativa do ponto de vista biológico. Identificamos ao menos três espécies de aranhas (marrom, caranguejeira e...), morcegos, grilos, centopéias e amblipígios em grande quantidade. Além disso, umidade elevada, com solo úmido, gotejamento, caminhos de água, o que deixava a temperatura algo agradável.

Seguimos explorando a gruta, podendo ficar boa parte do tempo de pé ou curvados no seu desenvolvimento principal, com algumas pequenas ramificações de teto baixo que fecham ou ficam muito apertadas. Ao longo da exploração, Ciel e Val produziam seus vídeos para as redes sociais, com os astros Jorgean e André no papel de comentarista, padrão Discovery Channel.


Alguns registros da biodiversidade da Toca dos Caboclos II. 


No terço final da caverna, o caminho vai afunilando gradativamente até a impossibilidade de passar. No trecho final, ainda seguir metros por rastejos super apertados, cheios de aranha marrom. Foi bem nesse conduto final, já retornando, que senti um incômodo pontual na barriga. 

No retorno, André ainda conseguiu identificar em meio a sedimentos úmidos um crânio de felino, possivelmente uma jaguatirica. Saímos dali felizes pela descoberta de uma cavernada com boa amplitude e rica em recursos  espeleológicos.


Rastejos no terço final da Toca dos Caboclos.


Val segurando o crânio fóssil de um felino.

Continuamos a prospectar o calcário à procura de uma dolina conhecida por Val. Achamos um buraco fundo pra caracoles, sem possibilidade de descida no momento. Decidimos ir almoçar próxima e retornar para uma tentativa. Porém, já eram 13h e as possibilidades de almoço estavam esgotadas nas comunidades próximas. Encontramos nosso manjar já no povoado do bebedouro, com a boa e velha coca gelada. Depois de uma pratrada, bateu a preguiça de fazer qualquer atividade vertical, condicionando a mudança de planos para a exploração da Toca da Laranjeira. 

Entramos na Toca da Laranjeira por volta das 15h, seguindo seus condutos sinuosos, inicialmente secos, até nos deparamos com a água, límpida, cor verde-água, por vezes com jangadas.  Percorremos os meandros por cerca de 40 minutos, quando atingimos um ponto crítico que testaria nossa coragem. Uma passagem por sifão, com diminutos espaços entre a agua e o teto. Exigia submersão parcial ou total, no breu. Fui o primeiro a testar a passagem. Em seguida André. Notando a preocupação dos demais, retornei pelo sifão, para dar suporte a passagem dos demais. Ciel e Val até que desconversavam:


-   É.. foi massa, viu?. Dá voltar daqui, que tá fácil.

-   Caminhamos foi muito. Ja deu pra ver que a caverna é grande. Que adrenalina hein? Deu pra cansar.
-    Pra mim já ta bom.
 
​ "Nem Tu, Nem Eu" pairou no ar. 


O primeiro trecho alagado da Toca das Laranjeiras.



Aquele impasse clássico onde ninguém quer ir, mas ninguém quer ser o primeiro a desistir. Jorgean, o Demolidor, quebrou a narrativa e mergulhou. Deu pressão nos caras. Veio a coragem. “ A palavra convence, mas o exemplo arrasta”.  Os dois passaram. Todos agora batizados na “Passagem dos Mergulhadores” do “Estreito de Berinberg”. 

Continuamos serpenteando os condutos, com água as vezes no joelho, as vezes no abdome. Mas, a caverna segue e caminhar na água triplica o gasto. Pouco mais de uma hora de caminhada, decidimos parar. Retornamos pelo mesmo caminho, passando pelo mesmo sifão, mas agora notando ao menos duas ramificações não identificadas na ida. Saímos da gruta já à noite, sentindo êxtase por algo novo e  radical,  sabendo que um dia retornaremos para concluir a missão de chegar no final.

 

                                                    Momento "nem tu nem eu"


Roupas trocadas e carro “arrumado”, nos despedimos de Val, Jorgean e Ciel, e pegamos a estrada de volta, em torno das 18:40. Na entrada de Juazeiro, já com o início das luzes da cidade, uma transição brusca entre a estrada de terra e o asfalto estourou o pneu do carro. Estávamos novamente no breu e com lanternas na mão. A situação, trocando o pneu no relento do acostamento, com o step meio vazio (porque ninguém lembra de calibrar o step) e sem qualquer dom para mecânico. Talvez por isso, o destino fez parar um mecânico que ia passando de moto. O apoio dele foi fundamental para a otimização da troca do pneu. 


O perrengue do pneu furado



De volta ao carro, cheguei a falar pra André que se houvesse uma justiça divina, a fim de compensar o contratempo, encontrariamos aberto uma borracheira ao lado de um espetinho no caminho de casa. Bingo! Estava lá na avenida do Antonio Cassimiro em Petrolina-PE, uma borracharia e os espetinhos na brasa logo no vizinho,, com arrocha tocando na talo. Mas, como o borracheiro achou o conserto do meu pneu muito complexo, decidimos encerrar o dia com cerveja gelada e fatiados em outro estabelecimento. 



 No fim, minha missão rendeu o esperado. Exploração de caverna é só uma desculpa esfarrapada pra sair de casa, se divertir, ser feliz e encontrar bons amigos. É importante construir memórias e ter alguma história para contar.

Dias depois, o incômodo que senti no quadrante inferior esquerdo do abdome foi piorando. Notei que havia uma lesão puntiforme com edema e hiperemia local. No segundo dor e prurido. No terceiro dia, a lesão se estendeu um pouco mais, piorou o edema e surgiram lesões satélites maculopapulares. Diagnóstico: picada de aranha marrom bem no bucho. 

Não apresentava manifestações sistêmicas relacionadas ao veneno. Não havia necrose, liquefação ou abscesso. Optei por não fazer o soro anti-loxoscélico disponível no Hospital de Traumas. O Ministério da Saúde recomenda a soroterapia em lesões graves com necrose local ou repercussões clínicas sistêmicas. Orienta tratamento com corticoide em casos leves. Fiz uso de prednisona 0,5mg/kg por 03 dia e antihistamínico. Horas logo após o início das medicações, já apresentei uma melhora. Hoje D7, apenas leve incômodo.  Importante: isso não é uma recomendação. Em caso de acidente com animal peçonhento, procure atendimento médico. 

Lesão de acidente com aranha marrom em um paciente atendido no trauma dias antes da expedição.

7dias após o acidente de aranha marrom na Toca do Caboclo. 


segunda-feira, 24 de março de 2025

Expedição março 2025 Parte 1: retorno à Toca do Vicente e novo paredão de calcário

 

Primeira semana de março de 2025. Encerrava-se minha jornada como residente de hematologia. Basta um tempo livre para o instinto explorador aflorar. E eu só pensava nos afloramentos de calcário que tinha visto meses antes. Mandei mensagem para André para verificar sua disponibilidade em prospectar. Logo entramos em um consenso: sexta pós-carnaval iríamos na Toca do Vicente e, em seguida, prospectar o paredão de calcário que vi em janeiro. No sábado, o caminho seria a região de Casas Velhas (distrito de Campo Formoso), onde fica situada a Lapa do Convento e também há um lajedo dentro das terras do nosso bom e velho Josan que precisava ser averiguado.

Partimos na manhã do dia 07/03/25, eu e Eugênia, agora casados, para mais uma aventura, guiando o Suzuki Jimny branco (Samurai Jack). Esquecemos Joana em Senhor do Bonfim por um erro de comunicação (que vacilo!). Encontramos com André em Campo Formoso. Como sempre, paramos no mercadinho em Poços para comprar o que comer, composto de barrinhas de cereais, fiambre, pão e suco em pó (almoço 5 estrelas).

 Eugênia disse na venda que o melhor pó de suco que ela já experimentou foi o da "baleinha" (figura 1), marca indisponível na venda e nunca vista antes. Depois dessa informação e inesperada, seguimos até a região da Gruta do Angico. Alguns quilômetros de estrada de chão, abrir e fechar de porteiras, paramos o carro na sombra ao lado da antiga casa de seu Idelso, morador antigo da região. Ele quem indicou as grutas da região para André (época em que completou os 33 anos, os quais perduram até hoje). Passamos por algumas plantações de sisal, cujas pontas são perversas. Passamos por alguns trechos de caatinga fechada, muitas vezes abertas na marra, já que o facão de André era cego (dos dois olhos). Alcançamos um pequeno leito de riacho seco, por onde caminhamos mais livremente. Felizmente esse seguia em direção a uma das entradas da Toca do Vicente.

Fig.1. Nostalgia de Eugênia
Fig 2. Rastejo externo em leito do rio seco para alcançar a entrada da Toca do Vicente.

Adentramos a gruta por um pequeno rastejo lateral, evitando a entrada principal por conta das abelhas. André já chegou na gruta com a bateria nas últimas. Seguiu ele para a coleta de ossos (uma mistura de ossos de veado, porco do mato e tamanduá bandeira). Talvez alguma onça fizesse a Toca do Vicente como sala de jantar. Explorei dois rastejos, que, para nossa surpresa, apresentavam desenvolvimento digno de nota. Ambos eram bem estreitos no primeiro terço, mas ganhavam expansão volumétrica em seguida e desenvolvimento horizontal de alguns metros (não mais que 100 metros). Em um deles, o final tinha grande quantidade de lama, o que proporcionou algumas quedas cenográficas quando tentei subir uma inclinação. A gruta possuía fauna bem ativa, com grilos, sapos, centopeias, morcegos, entre outros. No salão principal, com grande quantidade de guano, procuramos a entrada/saída principal. Consiste em uma fenda com sedimento e inclinação superior, na margem do salão. Foi nesse momento que Eugênia recebeu uma morcegada no rosto, um tapa. Não pela agressão morcegoide, mas sim pelo risco de ataque de abelhas, retornamos para a saída do rastejo e nos despedimos da Toca do Vicente.
Fig.3. Alguns registros da Toca do Vicente.

De volta ao carro, pegamos a estrada de chão retornando a fim de nos aproximar de um paredão de calcário que certa vez visualizei. Considerando a Toca do Angico como referência, a Toca do Vicente estaria alguns metros frontalmente, enquanto o paredão de calcário numa parte posterior ao Angico. Paramos o carro ao lado de uma cerca relativamente próxima a esse afloramento. Sobrevoei a área para certificar a localização do paredão de calcário e averiguar possíveis caminhos. Passamos a cerca e seguimos por diminutas trilhas feitas por criançada.

Fig.4. Imagens de drone do afloramento

Frequentemente, a trilha apagava e dava na caatinga fechada. Atravessamos o mato na cara e na coragem. Era cada lapada de urtiga, cansanção e favela. Espinhos agulhados para todo lado. Pense aí numa vegetação valente. É assim que o bioma lutou com Canudos na guerra. A caatinga por si só é uma fortaleza. Ainda fomos atacados por uma gangue de irapuás. Fizeram uma confusão com o cabelo de Eugênia. Após muita luta, chegamos próximo à parede. Um baita calcário, alto e prolongado horizontalmente. Com um corredor longo entre dois muros. Porém, o acesso às suas margens era difícil. A vegetação ficou ainda mais compacta. Era até visível algumas clareiras poucos metros à frente. Mas, percebendo o caminhar das horas (pouco mais de 17 horas), decidimos não prosseguir. Ainda restava o desafio de encontrar o caminho de volta com o sol se pondo. A vegetação ocultou os lugares por onde passamos. A luminosidade já baixa e o cansaço dificultaram ainda mais a orientação.

 

Figura 5. Avistamento do afloramento por baixo.

Felizmente, André tinha gravado a trilha no GPS do celular. Após alguns erros de trajeto, pegamos o caminho de volta. Os dois objetivos primários do dia foram alcançados. Já no carro, projetávamos uma futura expedição para concluir a prospecção desse calcário. Por hora, recarregar as energias, pois no dia seguinte teria mais (parte 2).

Figura 6. Aquela sensação de descobrir algo novo! 

Uma crônica de Leonardo Bamberg



terça-feira, 25 de outubro de 2022

Os segredos da Toca da Onça

 A Toca da Onça localizada no povoado de Caatinga do Moura, município de Jacobina, região norte da Bahia entrou para o mapa da ciência com as coletas e publicações realizadas pelo Professor Castor Cartelle no final da década de 70. Além de diversos espécimes da megafauna como: Preguiças e Tatus Gigantes, nesta caverna a essa mesma época foram coletados  restos de dois esqueletos humanos. Estudos desse material humano demonstram traços africano-australomelanésios com datações de 9 mil anos que demonstra a importância dessa caverna para a interessante questão do povoamento das Américas. Apesar de tamanha relevância até 2018 a caverna ainda carecia de informações geoespeleológicas que dão subsídios para a melhor utilização e valorização desse patrimônio natural. 

Vista área do afloramento da Toca das Onças. Uma árvore tombada cobre a dolina de formato circular que caracteriza a entrada da caverna.
Detalhe da entrada. 

No trabalho que realizamos em 2018 e publicado na revista Scientia plena (Artigo Original) nós caracterizamos a Toca das Onças do ponto de vista geomorfológico, realizamos uma topografia e um mapa da caverna foi publicado pela primeira vez e ficou disponível para que outros pesquisadores de diversas áreas como arqueologia e paleontologia possam usufrui desse material para complementar seus trabalhos. 



Aspectos da morfologia interna da caverna registrado sob a lente do Erickson Batista.



Já estávamos quase finalizando os trabalhos de topografia nessa expedição realizada no final de Janeiro de 2018 quando me deparei com um osso que se assemelhava a um osso humano, discutimos um pouco a respeito e decidimos fazer uma busca com maior atenção nesse pequeno trecho da caverna, não demorou e descobrimos diversos ossos relacionados, a dúvida se era ou não era de humanos permaneceu até que retirando um bloco e outro e limpando um pouco do sedimento revelou-se diante de nós uma mandíbula inequivocamente humana. Nossos corações dispararam e uma emoção tomou conta de todos os presentes, talvez estivéssemos diante de uma descoberta tão importante quanto foi a descoberta de Luzia (O fóssil humano mais antigo e que infelizmente foi queimado no incêndio que ocorreu no museu nacional do RJ).

Momento que encontramos a mandíbula humana durante os trabalhos espeleométricos de 2018.

O procedimento correto teria sido deixar cada vestígio desse em seu devido lugar e informar os pesquisadores da área de arqueologia sobre o ocorrido. No entanto, durante essa expedição participava um número muito grande de curiosos e ficamos receosos de deixar esse material para trás e que ele se perdesse antes da chegada dos pesquisadores, por essa razão após uma pequena discussão decidimos coletar e doar para a Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF) onde o material foi tombado e está sendo apropriadamente estudado.

Em 2021 fui convidado para participar de uma interessante investigação com um outro fóssil encontrado na Toca das Onças, tratava-se de algumas vertebras da preguiça gigante Eremotherium laurilardii, nestas vertebras o professor Fernando Barbosa identificou marcas relacionadas a um processo de cicatrização de uma ferida, o que nos fez sugerir que a preguiça caiu na caverna ainda viva, se machucou e ficou aprisionada na caverna até a sua morte algum tempo depois. Esse trabalho demonstrou pela primeira vez que a caverna funcionava como uma armadilha natural que os animais da megafauna caiam e não conseguiam sair, acumulando assim dezenas de esqueletos ao longo do tempo.  Esse trabalho foi publicado na influente Scientifc reports que é uma publicação do grupo Nature uma das mais relevantes revista científica do mundo. 

O título do trabalho publicado e fotos das vertebras encontradas na Toca das Onças.

Ilustração feita pela Paleoartista Júlia D' Oliveira representando a preguiça gigante tentando escapar sem sucesso da Toca das Onças durante a última era glacial.

Quais outros segredos ainda estão guardados na Toca das Onças à espera de novos olhares atentos?




Última expedição a Toca das Onças realizada em Outubro de 2021. Erickson, Juliano, André, Leo Bamberg, Eugênia (em pé) e Edemir (sentado).




quarta-feira, 3 de novembro de 2021

Spelaeogammarus! Quem são? Onde encontramos? e por que são importantes?

Quem são os Spelaeogammarus?

Popularmente são conhecidos como "Pitu" das cavernas. Trata-se de um minúsculo crustáceo de água doce (parente distante dos camarões) estão incluídos dentro da ordem dos Amphipoda ou anfípodes. As espécies de Amphipoda tem grande variação de tamanho, ocupam uma diversidade de habitats incluindo ambientes marinhos, de água doce e até ambientes terrestres úmidos. Dentro dos Amphipoda existe um grupo chamado de Gammaridea que são praticamente exclusivos de água doce e que o gênero mais conhecido é o Gammarus

Comparação mostrando as diferenças entre um anfípoda de água doce (que mais parece uma pulga aquática) com o pitu verdadeiro (um camarão de água doce).

O primeiro Gamaridea descrito em uma caverna brasileira ganhou o nome de Spelaeogammarus bahiensis; Spelaeo é o termo em latim para caverna.  Iva Nilce da Silva Brum descreveu esse novo animal em 1973, e no trabalho é informado que o material (2 machos e três fêmeas) foram coletados em uma caverna procedente do Distrito de Matamuté (Sic), Município de Curaçá na Bahia.  Na verdade no nome correto do distrito é Patamuté que é um termo da língua Cariri que significa "antas n'água. Não há registro de novas coletas do animal em Curaçá e fotos do espécime são desconhecidas, os trabalhos que citam o S. bahiensis repetem o erro de informar Matamuté ao invés de Patamuté. 

Desenho do artigo original que descreve o gênero. 

No final dos anos 80 e começo dos anos 90 pesquisadores do Grupo Bambuí de Pesquisas Espeleológicas identificaram e coletaram vários exemplares de Spelaeogammarus nas cavernas de Campo Formoso, principalmente Toca do Pitu, Lapa do Convento e Toca do Gonçalo; Inicialmente, acreditava-se que eram Spelaeogammarus bahiensis, porém na revisão feita por (KONEMANN & HOLSINGER, 2000) esses exemplares foram descritos como Speleogammarus trajanoae. A espécie é nomeada em homenagem a Professora da USP Eleonora Trajano por suas importantes contribuições para biologia subterrânea brasileira. 

No meu trabalho de graduação identificamos esse espécime (S. trajanoae) para uma nova caverna em Campo Formoso: a Toca da Tiquara (ARAÚJO & PEIXOTO, 2014); Posteriormente, nos trabalhos do Mestrado o identificamos em uma nova caverna em Várzea Nova: A Toca do Carlito (ARAÚJO et al., 2017).

Em C) coletando Amphipoda para o trabalho da graduação; D) tentativa de fotografar o minúsculo crustáceo em campo. E) Detalhe do S. trajanoae da Tiquara para a Dissertação do Mestrado. 


Registro extraordinário  de S. trajanoae feito pelo Erickson Batista na Toca do Carlito em Várzea Nova.

Do município de Iraquara foram coletados alguns exemplares nas cavernas Baixa do Salitre e Jaburu que foram identificados por (KONEMANN & HOLSINGER, 2000) como sendo da espécie Speleaogammarus spinilacertus. Mais tarde em 2004 Alexandre Camargo encontrou um exemplar de S. spinilacertus na Gruta da Torrinha (também em Iraquara). O exemplar de Iraquara é distinto das outras espécies do gênero por possuir alguns espinhos em um dos apêndices. Inclusive esse é o significado do nome spini= significa espinho e lacertus= braço superior.

Spelaeogammarus spinilacertus da Gruta da Torrinha. Foto: Alexandre Camargo (2004).


Da gruta do Padre, no município de Santana no oeste da Bahia foram coletados exemplares que (KONEMANN & HOLSINGER, 2000) identificaram como os de maior tamanho corporal comparado com as demais espécies (macho 13mm e fêmea 10 mm) , aparenta também maior transparência e é tecnicamente distinto das outras espécies por apresentar flagelos acessórios segmentados. Essa espécime foi batizada de Spelaeogammarus santanensis em referência a cidade de Santana.
Assim, como o S. bahiensis, não encontrei nenhuma imagem do S. santanensis.

No entanto, em 2014 André Senna (UFBA) junto com outros colaboradores descreveram uma nova espécie que está relacionada ao S. santanensis, essa espécie foi encontrada na caverna PEA- 445 na cidade de Santa Maria da Vitória e apresenta algumas características distintivas sendo uma das características que chamam a atenção o comprimento. Enquanto que até então S. santanensis ocupava o posto de maior Spelaeogammarus com 13mm esse novo espécime encontrado em Santa Maria da Vitória tem mais que 18mm de comprimento sendo considerado agora o maior Spelaeogammarus e por isso mesmo foi batizado com o nome de Spelaeogammarus titan!


S. titan. Foto de Rodrigo L. Ferreira uma dos autores do trabalho de descrição.



Rafaela Basto-Pereira & Rodrigo Lopes Ferreira (UFLA), descreveram recentemente mais 02 novas espécies: Spelaeogammarus sanctum para a conhecida e muito visitada caverna do Bom Jesus da Lapa e Spelaeogammarus uai coletado na Lapa d' água do Zezé em Itacarambi- MG. Sendo esse último o primeiro Spelaeogammarus registrado fora do Estado da Bahia; Embora a caverna faça parte da mesma unidade geológica (Grupo Bambuí) em que foram descritas as espécies S.santanensis, S. titan e S. sanctum.





Onde estão os Spelaeogammarus?

Aqui está uma excelente oportunidade para falar sobre nossos aquíferos cársticos. A interação entre as águas superficiais e subterrâneas em locais que tem rochas carbonáticas, resulta em um complexo e imprevisível aquífero denominado aquífero cárstico. Esses aquíferos são pouco estudados do ponto de vista biológico e costumam apresentar um grande número de espécies únicas e exclusivas. 
No Estado da Bahia temos aquíferos cársticos relacionados a bacia do Rio São Francisco. No oeste temos um aquífero nos carbonatos do Grupo Bambuí na bacia do Urucuia; Na região central, temos o aquífero nos carbonatos do Grupo Una subdividido nas bacia Una- Utinga e bacia de Irecê na região da Chapada Diamantina e também nos carbonatos do Grupo Una temos a bacia do Salitre na região norte do Estado; Os carbonatos ocorrem ainda em um pequena faixa na Sub-bacia de Curaçá-Canudos. Ver mapa a seguir.


No aquífero cárstico da bacia do Urucuia foram encontrados 4 espécies: Spelaeogammarus uai; S. sanctum, S. titan e S. santanensis. Da bacia de Irecê foi descrito o S. spinilacertus; Na bacia do Salitre o S. trajanoae; e na bacia de Curacá-Canudos o Spelaeogammarus bahiensis. Uma olhada rápida no mapa e já dá para fazer uma previsão científica. Uma espécie de Spelaeogammarus está aguardando ser descoberta e descrita na bacia de Una-Utinga!

Além disso, a própria bacia de Irecê é subestimada com relação a ocorrência do anfípode. Na bacia do Salitre ocorre um número maior de expedições  espeleo-científicas e o crustáceo já foi registrado de um extremo a outro da bacia. Enquanto que na parte norte da bacia de Irecê, na sub-bacia do  rio Verde-Jacaré há uma lacuna de conhecimento espeleológico.

Nessa imagem pode-se observar a ocorrência de Spelaeogammarus por bacia no Estado da Bahia. 

Podemos pensar em duas hipóteses para explicar a distribuição do Spelaeogammarus. Uma primeira possibilidade seria que o ancestral do Spelaeogammarus (talvez, um parente que vivesse nas águas superficiais) invadiu um ponto específico do aquífero e a partir daí se espalhou por migração para todos os pontos onde hoje eles são encontrados. Transpondo barreiras entre uma unidade geológica e outra e pouco a pouco separando as populações e promovendo especiação. 
" Um exemplo hipotético: O ancestral invadiu o ambiente subterrâneo onde hoje é a bacia do Urucuia na região oeste. E formou a espécie 01 uma parte da população da espécie 01 conseguiu transpor a barreira e migrou para o aquífero na parte central do Estado e essa população isolada formou a espécie 02. O processo se repete formando a espécie 03 a partir de uma parte da população da espécie 02 e assim sucessivamente." 

A hipótese alternativa a da migração é a chamada hipótese do efeito vicariante. Nessa proposta as bacias que hoje estão separadas já foi no passado uma única unidade geológica e nessa unidade a espécime ancestral do Spelaeogammarus era abundante e ocupava o aquífero como todo. Com o tempo (intemperismo e erosão), essa unidade se fragmentou em várias "ilhas" que hoje são as bacias, separando a população que antes era contínua em várias subpopulações isoladas, cada uma dessas subpopulações acumulou as diferenças que as tornam espécies diferentes. 

Qual das duas hipóteses é mais provável?
 Usar esse espécime para ajudar a explicar esse importante tipo de questão evolutiva já responde a pergunta do título da postagem

Por que Spelaeogammarus importa?

As espécimes encontradas em aquíferos cársticos são representantes de espécies muito antigas que foram abundantes no passado e hoje são restritas a esses ambientes e por isso são chamadas espécies relictuais. 
No trabalho que desenvolvemos durante o Mestrado tentamos dar uma olhada nessa questão da distribuição, utilizando uma das bacias como modelo. Escolhemos a bacia do rio Salitre e observamos a ocorrência das populações de Spelaeogammarus trajanoae para pensar se migração ou efeito vicariante explicaria melhor essas populações estarem separadas dentro da bacia. 
No mapa a seguir observa-se as cavernas que permite acesso ao aquífero e tentamos registar os Amphipodas. 


O que percebemos preliminarmente é que Spelaeogammarus parece ter baixo poder de dispersão. Mesmo em cavernas que o lençol freático aflora em pontos diferentes os espécimes foram observados sempre nos mesmos pontos. Outro ponto que percebemos é que locais em que eles já foram registrados em trabalhos anteriores com por exemplo na Toca do Gonçalo em Campo Formoso, não foram mais observados devido ao rebaixamento do lençol freático. 

Sugerimos nesse trabalho que Speleogammarus já foi abundante em todo o aquífero da bacia do Rio Salitre, mas que mudanças paleoclimáticas restringiu esses anfipodes em refúgios de hábitat subterrâneos em longos períodos de seca o que poderia ser uma razão para não encontrar populações em pontos com conexões hidráulicas. É claro que outras explicações são plausíveis e apenas começamos a fazer as perguntas. 
No entanto a grande preocupação é: Vamos ter tempo para responder? Isso por que a má utilização da água subterrânea para agricultura extensiva junto com a contaminação do lençol freático pelos mais diversos tipos de poluentes aliados a crise climática trazendo anos com cada vez menos chuvas pode levar a extinção dessas maravilhosas criaturas antes mesmo que eles possam nos ajudar a responder simultaneamente como evoluiu a espécie e o relevo.

Referencias 

ARAÚJO, A.V. & PEIXOTO, R.S. The Impact of Geomorphology and Human Disturbances on the Faunal Distribution in Tiquara and Angico Caves of Campo Formoso, Bahia, Brazil. Ambient Science, 2014: Vol. 01(1).

ARAÚJO, A.V.; Leal, L.R.B.; Gomes, D.F. Anfípode subterrâneo do gênero Spelaeogammarus como um indicador de conectividade em um aquífero cárstico da bacia do rio Salitre, centro norte do Estado da Bahia. In Proceedings of the Anais do XIX Congresso Brasileiro de Aguas Subterrâneas, Campinas, Brazil, 20–23 September 2016; Associação Brasileira de Águas Subterrâneas: São Paulo, Brazil, 2016

ARAÚJO, A.V; BASTOS-LEAL, L.R.; Gomes, D.F. Novos dados preliminares sobre o padrão biogeográfico de Spelaeogammarus trajanoae Koenemann & Holsinger, 2000(Amphipoda: Bogidiellidae) no aquífero cárstico da bacia do rio Salitre, centro norte do Estado da Bahia. Revista Brasileira de Espeleologia- RBesp. V. 2, nº8 .2017.

BASTOS-PEREIRA, R. & FERREIRA R.L. A new species of Spelaeogammarus (Amphipoda: Bogidielloidea: Artesiidae) with an identification key for the genus. Zootaxa 4021 (3): 418–432. 2015. http://dx.doi.org/10.11646/zootaxa.4021.3.2.

CAMARGO, A. Gruta da Torrinha: Uma nova localidade do anfípode troglomórfico, Spelaeogammarus spinilacertus (Bogidiellidae), de cavernas de Iraquara, Bahia. Revista O Carste, Volume 16 nº1. 2004.

KOENEMANN, S. & HOLSINGERr, J.R. Revision of the subterranean amphipod genus Spelaeogammarus (Bogidiellidae) from Brazil, including descriptions of three new species and considerations of their phylogeny and biogeography. Proceedings of the Biological Society of Washington, 113 (1), 104–123. 2000.

SENNA, A.R., ANDRADE, L.F., CASTELO-BRANCO, L.P. & FERREIRA, R.L. Spelaeogammarus titan, a new troglobitic amphipod from Brazil (Amphipoda: Bogidielloidea: Artesiidae). Zootaxa, 3887 (1), 55–67.2014. http://dx.doi.org/10.11646/zootaxa.3887.1.3.