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segunda-feira, 1 de junho de 2026

EXPEDIÇÃO ABREUS - NEM TU NEM EU por Leonardo Bamberg

 Diante de um raro fim de semana sem compromissos, lancei no grupo a ideia despretensiosa de mais uma expedição. Após o tradicional "vou, não vou" dos indecisos, a missão foi selada: explorar as imediações de Abreus, distrito de Campo Formoso (BA), convite prévio do amigo Val do Léle. Saímos de Petrolina-PE eu (Bamberg) e André, ainda no auge dos seus 33 anos. Partimos em busca de um pouco de caos organizado. No som, Los Hermanos embalava conversas sobre a vida e a paternidade futura. No meio do caminho, veio a lembrança do tanque quase vazio. Realizamos uma parada rápida para abastecer e garantir o estoque de água e petiscos. Um hora e meia de asfalto e terra, completamos o time:  escalação com Jorgean (o "Demolidor"), Val do Lelé (o homem da mídia) e Ciel Brejão (o blogueirinho das aventuras). A velha guarda já estava ali no povoado coletando informações com moradores locais, um deles mudo. Jorginho dialogava com ele através de grunhidos e gesticulações, optando pra mim e fazendo gestos afeminados com a mão. Eu tentava sem sucesso desfazer o equívoco. 


Os integrantes da expedição pré cavernada. Leonardo Bamberg e André Vieira no carro, Jorgean Silva, Ciel Brejão e Valber Freitas sentados na calçada.

Depois do momento da quinta série, já com a formação do quinteto, partimos para a Toca do Caboclo, próximo ao povoado.
Estacionado perto do lajedo, conjecturei que a gruta seria pequena e que seria um dia quente. Com esse meu cálculo, optei por não colocar o macacão de nylon. 

Apostei na camisa de manga longa e calça ripstop, sem saber o preço da escolha.

Nos deparamos com o  lajedo cárstico (lapia). Um campo minado, com espinhos de coroa de frade espalhados de forma camuflada do calcário cinza e afiado. A paisagem tem um tom extraterrestre, mistura de caatinga com solo lunar. Alguns metros de caminhada, chegamos na primeira toca. Esta chamava atenção não pelo desenvolvimento, mas pela presença de pinturas rupestres. A maior delas representava um animal de cauda longa e espichada na ponta, remetendo-se a um tatu pré-histórico extinto, vigiando a entrada do tempo. 


Visão do carste da região de Abreus.


Entrada Toca dos Caboclos I


Andamos poucos metros ao lado para chegar na Toca do Cabloco.  A entrada horizontal, com altura próxima aos 5 metros.
Uma passagem apertada ao fundo dava acesso ao seguimento da caverna, que apresenta dois pisos. A parte superior tem um desenvolvimento horizontal de alguns metros frontalmente. Já a parte inferior, acessada por um pequeno abismo de 4 metros, é responsável pelo maior desenvolvimento da caverna e abriga a maior parte das descobertas.


Entrada Toca dos Caboclos II

Acesso ao nível inferior da Toca dos Caboclos II



Logo ao descer, notamos uma caverna ativa do ponto de vista biológico. Identificamos ao menos três espécies de aranhas (marrom, caranguejeira e...), morcegos, grilos, centopéias e amblipígios em grande quantidade. Além disso, umidade elevada, com solo úmido, gotejamento, caminhos de água, o que deixava a temperatura algo agradável.

Seguimos explorando a gruta, podendo ficar boa parte do tempo de pé ou curvados no seu desenvolvimento principal, com algumas pequenas ramificações de teto baixo que fecham ou ficam muito apertadas. Ao longo da exploração, Ciel e Val produziam seus vídeos para as redes sociais, com os astros Jorgean e André no papel de comentarista, padrão Discovery Channel.


Alguns registros da biodiversidade da Toca dos Caboclos II. 


No terço final da caverna, o caminho vai afunilando gradativamente até a impossibilidade de passar. No trecho final, ainda seguir metros por rastejos super apertados, cheios de aranha marrom. Foi bem nesse conduto final, já retornando, que senti um incômodo pontual na barriga. 

No retorno, André ainda conseguiu identificar em meio a sedimentos úmidos um crânio de felino, possivelmente uma jaguatirica. Saímos dali felizes pela descoberta de uma cavernada com boa amplitude e rica em recursos  espeleológicos.


Rastejos no terço final da Toca dos Caboclos.


Val segurando o crânio fóssil de um felino.

Continuamos a prospectar o calcário à procura de uma dolina conhecida por Val. Achamos um buraco fundo pra caracoles, sem possibilidade de descida no momento. Decidimos ir almoçar próxima e retornar para uma tentativa. Porém, já eram 13h e as possibilidades de almoço estavam esgotadas nas comunidades próximas. Encontramos nosso manjar já no povoado do bebedouro, com a boa e velha coca gelada. Depois de uma pratrada, bateu a preguiça de fazer qualquer atividade vertical, condicionando a mudança de planos para a exploração da Toca da Laranjeira. 

Entramos na Toca da Laranjeira por volta das 15h, seguindo seus condutos sinuosos, inicialmente secos, até nos deparamos com a água, límpida, cor verde-água, por vezes com jangadas.  Percorremos os meandros por cerca de 40 minutos, quando atingimos um ponto crítico que testaria nossa coragem. Uma passagem por sifão, com diminutos espaços entre a agua e o teto. Exigia submersão parcial ou total, no breu. Fui o primeiro a testar a passagem. Em seguida André. Notando a preocupação dos demais, retornei pelo sifão, para dar suporte a passagem dos demais. Ciel e Val até que desconversavam:


-   É.. foi massa, viu?. Dá voltar daqui, que tá fácil.

-   Caminhamos foi muito. Ja deu pra ver que a caverna é grande. Que adrenalina hein? Deu pra cansar.
-    Pra mim já ta bom.
 
​ "Nem Tu, Nem Eu" pairou no ar. 


O primeiro trecho alagado da Toca das Laranjeiras.



Aquele impasse clássico onde ninguém quer ir, mas ninguém quer ser o primeiro a desistir. Jorgean, o Demolidor, quebrou a narrativa e mergulhou. Deu pressão nos caras. Veio a coragem. “ A palavra convence, mas o exemplo arrasta”.  Os dois passaram. Todos agora batizados na “Passagem dos Mergulhadores” do “Estreito de Berinberg”. 

Continuamos serpenteando os condutos, com água as vezes no joelho, as vezes no abdome. Mas, a caverna segue e caminhar na água triplica o gasto. Pouco mais de uma hora de caminhada, decidimos parar. Retornamos pelo mesmo caminho, passando pelo mesmo sifão, mas agora notando ao menos duas ramificações não identificadas na ida. Saímos da gruta já à noite, sentindo êxtase por algo novo e  radical,  sabendo que um dia retornaremos para concluir a missão de chegar no final.

 

                                                    Momento "nem tu nem eu"


Roupas trocadas e carro “arrumado”, nos despedimos de Val, Jorgean e Ciel, e pegamos a estrada de volta, em torno das 18:40. Na entrada de Juazeiro, já com o início das luzes da cidade, uma transição brusca entre a estrada de terra e o asfalto estourou o pneu do carro. Estávamos novamente no breu e com lanternas na mão. A situação, trocando o pneu no relento do acostamento, com o step meio vazio (porque ninguém lembra de calibrar o step) e sem qualquer dom para mecânico. Talvez por isso, o destino fez parar um mecânico que ia passando de moto. O apoio dele foi fundamental para a otimização da troca do pneu. 


O perrengue do pneu furado



De volta ao carro, cheguei a falar pra André que se houvesse uma justiça divina, a fim de compensar o contratempo, encontrariamos aberto uma borracheira ao lado de um espetinho no caminho de casa. Bingo! Estava lá na avenida do Antonio Cassimiro em Petrolina-PE, uma borracharia e os espetinhos na brasa logo no vizinho,, com arrocha tocando na talo. Mas, como o borracheiro achou o conserto do meu pneu muito complexo, decidimos encerrar o dia com cerveja gelada e fatiados em outro estabelecimento. 



 No fim, minha missão rendeu o esperado. Exploração de caverna é só uma desculpa esfarrapada pra sair de casa, se divertir, ser feliz e encontrar bons amigos. É importante construir memórias e ter alguma história para contar.

Dias depois, o incômodo que senti no quadrante inferior esquerdo do abdome foi piorando. Notei que havia uma lesão puntiforme com edema e hiperemia local. No segundo dor e prurido. No terceiro dia, a lesão se estendeu um pouco mais, piorou o edema e surgiram lesões satélites maculopapulares. Diagnóstico: picada de aranha marrom bem no bucho. 

Não apresentava manifestações sistêmicas relacionadas ao veneno. Não havia necrose, liquefação ou abscesso. Optei por não fazer o soro anti-loxoscélico disponível no Hospital de Traumas. O Ministério da Saúde recomenda a soroterapia em lesões graves com necrose local ou repercussões clínicas sistêmicas. Orienta tratamento com corticoide em casos leves. Fiz uso de prednisona 0,5mg/kg por 03 dia e antihistamínico. Horas logo após o início das medicações, já apresentei uma melhora. Hoje D7, apenas leve incômodo.  Importante: isso não é uma recomendação. Em caso de acidente com animal peçonhento, procure atendimento médico. 

Lesão de acidente com aranha marrom em um paciente atendido no trauma dias antes da expedição.

7dias após o acidente de aranha marrom na Toca do Caboclo. 


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