Expedição Kupi II : O Show tem que continuar
A Lanternas
dos afogados
Palavras chave: lanterna, frio,
chata.
Na minha primeira expedição já ouvi
histórias de cavernas com água, onde seria preciso nadar e passar por muita
lama. André indicou que assistíssemos ao filme O Santuário, filme muito bom e
que indico para quem quer se aventurar debaixo da terra. Criada toda a
expectativa em seis de Agosto, quando
fiz a minha primeira expedição, chegou dia 11 de dezembro e para coroar a
última expedição do ano, uma expedição com “muita água”. A SEA tentava pela 4ª
vez percorrer de ponta a ponta a Lapa do Convento em toda sua extensão,
aproximadamente 10 km.
Nossa aventura já começa ao sairmos
de Campo Formoso, onde deixamos os nossos carros e embarcamos numa van, onde
tínhamos como motorista Juliano, o carteiro do macacão (futuramente
explicaremos esse apelido). Chegamos em Casas Velhas, e fomos até a casa do Sr.
Toinho, a fim de descobrir como chegaríamos à entrada do Buracão,
entrada em que apenas André tinha ido há quatro anos e não lembrava como
chegar. Entramos na van com o Sr. Toinho até o ponto em que a van não conseguia
mais avançar, e ele foi nos explicando as referências no percurso:
“Segue
na trilha, até chegar a um lajedo, passar reto pelo lajedo e encontrarão uma árvore com
um poste encostado, e depois encontraram mais dois postes na trilha, logo após
o terceiro poste terão que dobrar a esquerda e já estarão na entrada.”
Era 11:30 e com boas referências e caminho simples, em
menos de 30 minutos estaríamos na entrada do Convento, certo? Errado. Nossa
primeira dificuldade se encontrou ainda fora da caverna, no meio da caatinga.
Chegamos até o lajedo tranquilamente, porém perdemos a noção de referência e
fizemos curva no lajedo, porém estávamos convictos que era o caminho certo.
Dessa vez tínhamos um “GPS”, e seguros que não nos perderíamos, já que havíamos
marcados o ponto inicial. Uma parte do pessoal ficou sentada embaixo de uma
árvore, enquanto André, Zero Um, Manoel e eu procurávamos a entrada. Passamos
uma 01h30minhr rodando na caatinga sem nenhum êxito, apenas encontramos uma
abertura para a caverna e tomamos como referência, uma referência que não foi
de muita serventia. Decididos voltar, acabamos percebendo que estávamos
perdidos e que tínhamos um GPS, mas não sabíamos usá-lo. Então foi perguntado a
Manoel se ele sabia onde estávamos a resposta que tivemos foi essa: “Sei sim, estamos no buraco que tomamos como
referência”. Acontece que andamos em círculos e na verdade voltamos a lajedo.
Fomos ao encontro do restante do grupo e conversamos um pouco, e decidi com André tentar a última investida para um lado em que tinha
pressentimento que era o certo. E começamos a seguir para esse lado, a caatinga
se fechou e era inevitável não acabar esbarrando em “favelas” (planta que coça
muito se encostar-se à pele, mas é muito mesmo), percebemos que o terreno era
bem irregular, ora tinha uma baixada ora tinha subida, começamos a ficar
confiantes de que era o lado certo, até que depois de mais 20 minutos andando e
cortando “mato com o peito”, encontramos a entrada o que ocasionou uma mistura
de sentimentos, euforia e felicidade misturada com alívio, já que caso não
encontrássemos a entrada do Buracão, teríamos que fazer todo o caminho de volta
até a casa do Sr. Toinho e tentar entrar pela entrada mais conhecida do
Mandacaru, o que seria um problema, pois já era 13h30min. Voltamos e avisamos
ao grupo de que havíamos encontrado a entrada, ao chegar à entrada, paramos
para comer e descansar um pouco, para aí sim começarmos nossa expedição pelo
Convento.
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Entrada do Buracão - Lapa do Convento. Atrás: Rafaela, ZeroUm, Taís, André, Altemar. Na Frente: Juliano, Mamá e Géssica, Thiago e Yanka. |
Logo na entrada já tinha um cartão de visitas e
apresentação do que iríamos passar, com bastante travessia dentro d’água, nas
paredes conseguíamos ver os níveis em que a água já havia chegado em chuvas
passadas, a caverna estava com “pouca água”. Começamos nossa expedição pelo
Convento e como era a primeira vez de algumas pessoas em caverna com água o
medo do que não se conhece apareceu um pouco em algumas frases: “Será que tem
bicho na água?”, “Tem um bicho aqui”, “É fundo demais?”.
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Primeiro contato com a água |
A expedição estava tranqüila, até que chegamos na
primeira travessia que precisaríamos nadar. Surge a figura de Juliano, que tira
de dentro da bolsa uma bóia de criança, junto com um saco de plástico grosso,
coloca a mochila dentro do saco de plástico e emiti a seguinte frase: “Isso
aqui que é uma bolsa estanque”. Passada a descontração com a bolsa estanque de
Juliano, eis que surgiu o primeiro problema, o medo de encostar o rosto na água
por causa da histoplamose, Gessica não sabia nadar e Yanka tinha pavor a água
escura, era uma travessia curta, Gessica estava com colete e conseguiu passar tranquila,
Yanka também passou tranquila. A surpresa veio quando Mamá foi passar, ela
pediu a bóia da filha de Juliano, para colocar a bolsa em cima, pois estava
receosa de passar com a bolsa nas costas, acontece que a ideia não deu muito
certo, ao tentar passar a bolsa caiu da boia e ela levou um caldo tentando
manter a bolsa na boia, deu uma golada na água e depois conseguiu passar. Após
essa travessia, andamos mais um pouco e decidimos parar para descansar e nos
alimentar perto de uma abertura na caverna, mas ainda faltava muito para
chegarmos ao nosso destino, então não demoramos muito e voltamos a andar.
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Primeira parada para descanso |
Tomamos o nosso rumo e fomos intercalando caminhadas com
travessia com água que chegavam a atingir até a altura do peito, até que
chegamos a uma travessia em que precisaríamos nadar mais uma vez, só que dessa
vez já era uma travessia maior, André tentou ir por cima das pedras, mas estava
muito escorregadio, e decidimos esticar a corda novamente e todos passarem pela
corda, acontece que a corda não dava para atravessar toda a extensão da água,
então procuramos até um lugar que dava pé e esse seria o ponto em que seria
preciso nadar um pouco sem auxílio da corda. As meninas ficaram receosas e
deixaram suas bolsas para que eu e Zeroum levássemos, eu nadei com 2 bolsas e
Zeroum com 2 bolsas. E essa foi considerada uma travessia “tranquila”.
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Lapa do Convento |
Continuamos seguindo nesse ponto ninguém mais queria
nadar, e pensamos que não precisaríamos mais, até que surge o nosso maior
desafio, um lago que deveria ter entre uns 30 a 40 metros de comprimento. Só
tínhamos uma corda de 20 metros, e não tinha nenhum ponto de apoio no meio do
lago. Então se ter muito o que fazer, começamos a travessia todos começaram a
nadar, e nesse momento passamos mais um susto, Manoel estava usando uma máscara
com filtro e ao tentar nadar com ela, em algum momento, a água travou a
passagem de ar, o que fez entrar em um pequeno do desespero e quase de afogar,
na luta para se manter vivo e não se desesperar mais, ele acabou perdendo sua
lanterna que caiu no “fundo do poço”, mas conseguiu se recuperar e fazer a
travessia.
Visto isso vi poderíamos passar pela parede, fazendo um Boulder
(modalidade de escalada) por dentro da água e diminuir esse risco, foi aí que
chamei Yanka e fomos usando essa estratégia. Yanka estava com muito frio e
surgiu a preocupação de ir mais rápido para que ela não tivesse hipotermia,
para dificultar ainda mais a nossa travessia, apareceu uma caranguejeira morta
perto de nós, Yanka se desesperou um pouco, mas conseguimos progredir. Outra
que passou um sufoco nadando nessa travessia foi Thaís que cansou e ao tentar
virar de costas para descansar e nadar de costas passou um susto, mas foi auxiliada
por Rafinha que estava nadando ao seu lado. Ao fim da travessia, Yanka
apresentava sinais de hiportemia, lábios roxos e muito frio, tiramos a sua
roupa molhada e a esquentamos, ela vestiu uma camisa térmica e ficou melhor.
Passado o susto, descansamos um pouco e nos alimentamos.
Porém, ao abrir um pote “estanque”, Altemar verificou que tinha entrada água no
pote, e molhado toda a sua comida, esse não foi o maior problema, o problema
era que o celular de Mamá também estava no pote, resumo, queimou o celular.
Acabamos nomeando essa travessia de “Lago dos Afogados”. E continuamos seguindo
a fim de concluir nossa expedição, andamos e andamos até que chegamos em uma
abertura, a do Mandacaru e então depois de conversar um pouco percebemos que
pegamos o caminho errado, então foi feita uma votação se voltaríamos e
procuraríamos onde erramos ou sairíamos da caverna e mais uma vez não
conseguiríamos concluir a travessia do Convento. Estávamos cansados e na
votação ficou meio a meio, só que ao perguntar a Géssica qual era seu voto, de
imediato ela respondeu “voto por sair logo, essa caverna é chata”, todos rimos
e a sensação de estresse passou um pouco, porém Géssica foi voto vencido e
voltamos para dentro da caverna para encontrar onde tínhamos errado. Andamos,
andamos e andamos e percebemos que o caminho certo era antes do lago em que
Manoel quase se afogou, foi uma travessia muito complicada para muita gente do
grupo e ali acabava nossa esperança em concluir dessa vez a travessia do
Convento. Voltamos para a saída do Mandacaru, tristes por não conseguir
concluir a meta.
Fizemos uma breve escalada para sair, já passava das
20hrs e ao sair estávamos mais tranquilos, pois o caminho de volta era
conhecido e a cerca que nos dava referência ficava próxima a saída, certo?
Errado mais uma vez. Subimos pelo lado errado, e passamos um bom tempo
procurando pela cerca que estava do outro lado da saída, foi então que nos
demos conta e fomos procurar do lado certo. Passamos um bom tempo procurando a
cerca para irmos embora, conseguimos chegar na casa do Sr. Toinho perto das
22horas, o cansaço era evidente em todo mundo e assim nos despedimos mais uma
vez do Convento, com uma sensação de que dá próxima vez essa travessia será
concluída.
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Casa do Sr. Toinho na volta para casa |
Até a próxima.
Thiago Mattos!
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